Um dia após reintegração, moradores protestam na Prefeitura

Na terça, moradores da Favela do Real Parque entraram em confronto com a PM após cumprimento do mandado

Solange Spigliatti, do estadao.com.br,

12 de dezembro de 2007 | 12h41

Os cerca de 50 moradores desalojados após a reintegração de posse na Favela Real Parque, na zona sul de São Paulo, realizaram uma manifestação em frente à Prefeitura de São Paulo na manhã desta quarta-feira, 12. Os manifestantes exibem faixas reclamando da maneira como a Polícia Militar reprimiu os protestos que os moradores fizeram na Marginal do Pinheiros contra a reintegração de posse cumprida na terça-feira, 11. Por volta das 12h15, o grupo estava na Praça do Patriarca próximo à Rua São Bento.    Defensoria quer o fim do cheque-despejo   19 favelas crescem nas bordas das marginais      Por volta das 10 horas desta quarta, uma faixa da pista local da Marginal do Pinheiros foi interditada na altura da Favela Real Parque para a retirada de entulho da reintegração cumprida na terça. A reintegração de posse determinada pela Justiça desalojou 70 famílias e derrubou 139 barracos. Por conta da interdição, o congestionamento no local chegava a 3 km, às 12 horas, indo da ponte Morumbi até a Cidade Jardim.   Na terça, policiais militares e moradores entraram em conflito por conta da maneira como os PMs entraram na favela para cumprir o mandado de reintegração. Desavisadas, as famílias que ocupavam parte dos 140 barracos destruídos revoltaram-se e invadiram a marginal. A polícia interveio e houve confronto. A pista local da marginal ficou fechada por dez horas. O congestionamento chegou a 154 quilômetros às 11h30 - igualando o recorde do ano no período da manhã desde o início da nova medição da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).   Moradores foram acordados às 6 horas pelo oficial de Justiça e, segundo o subprefeito do Butantã, Maurício Pinterich, tiveram uma hora e meia para deixarem as casas. "Estava me preparando para trabalhar quando vi a movimentação dos policiais. Não é justo fazerem desse jeito. Nem acabei de pagar o material de construção", lamentava a servente Silvania Gomes, de 28 anos.   A arquiteta Heloísa Diniz, que atua na favela pela ONG Usina, diz que a operação foi violenta. "Não houve aviso ou preparação. O oficial de Justiça chegou com a decisão do juiz e, uma hora depois, a polícia já estava soltando gás pimenta em crianças e bala de borracha em mulher grávida."   O terreno de 17 mil metros quadrados pertence à Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae). Como o Estado revelou no dia 24, há cerca de três meses houve uma proliferação de barracos, mas apenas 40 eram ocupados, com 180 moradores. Os demais haviam sido erguidos por interessados em conseguir cheque-despejo de R$ 5 mil da Prefeitura.   Revolta   Revoltados com o despejo, um grupo de moradores invadiu a pista expressa da Marginal do Pinheiros às 10h20. Antes, só a pista local estava fechada. Crianças e adultos sentaram-se no meio da via, impedindo a passagem dos veículos. A Força Tática da Polícia Militar soltou bombas de efeito moral e gás pimenta para dispersar manifestantes. Quem estava nos barracos atirou pedras nas viaturas e os policias reagiram com mais bombas.   Lázaro de Oliveira, de 14 anos, teria sido ferido por bala de borracha. "Ele estava sentado na escada, quando os policias vieram jogando bomba e atirando. Não vi na hora, mas depois me avisaram que meu filho tinha sido atingido por bala de borracha", contou a desempregada Ledjane de Oliveira Neves. O garoto foi atendido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e liberado.   Nervosa com a falta de notícias dos três filhos, Maria Lúcia Lopes da Silva, grávida de 8 meses, foi levada para o Hospital do Campo Limpo. "Ela ouviu o barulho das bombas e achou que estavam atirando nos filhos dela. Quando saiu de casa, ficou sufocada com a fumaça das bombas", contou a vizinha Luciana Souza Pereira.   Maria morava havia três meses no barraco que construiu com a ajuda de freqüentadores da Igreja Deus é Amor. "Ela não tinha parentes. Antes, vivia em São Miguel Paulista, onde pagava R$ 180 de aluguel. Foi despejada e a ajudamos a vir para cá", contou a dona de casa Helena Maria de Souza Matos.   "Mais humana possível"   Segundo o capitão Ezequiel Morato, do 16 º Batalhão da PM, não foram usadas balas de borracha. Ele disse, porém, que as bombas de efeito moral podem causar ferimentos. Em nota, a Emae informou que a reintegração foi feita da "forma mais humana possível, respeitando as necessidades básicas e as dificuldades dos moradores".   A Defensoria Pública de São Paulo tentaria ainda ontem revogar a reintegração. Segundo a defensora Carolina Pannain, a área designada na liminar inclui moradias construídas desde 2002 e os moradores já teriam direito de usucapião.   Entre policiais, guardas civis metropolitanos, agentes da Prefeitura e da CET, 378 pessoas participaram da operação. "Nesses casos, não se avisa com antecedência os moradores", disse o subprefeito. As autoridades envolvidas, porém, planejaram tudo com um dia de antecedência.   (Com informações de Camila Riggi e Sérgio Duran, de O Estado de S. Paulo.)

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