JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Um dia após operação, Cracolândia tem fluxos 'paralelos'

Estado localizou ao menos quatro novos fluxos no entorno do quarteirão onde houve a operação policial no último fim de semana; governo do Estado fala em 200 agentes de saúde em busca dos usuários de droga

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2017 | 16h49

SÃO PAULO - Um dia após a operação do governo do Estado para prender traficantes na Cracolândia, na região central de São Paulo, o fluxo de usuários de crack e moradores de rua se espalhou em diversos pontos próximos. Mesmo na área em que a feira de drogas estava instalada ainda há circulação dos dependentes químicos, mas sem drogas e com forte fiscalização da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e Polícia Militar, que fazem revista em quem tenta entrar no “quarteirão”.

A reportagem do Estado circulou por toda a manhã e início da tarde nas ruas do centro no entorno da Cracolândia e constatou que pequenos fluxos se montaram e desmontaram, inclusive com circulação de álcool, crack e cigarros. Moradores de rua que dormiam na frente da estação Julio Prestes, por exemplo, tiveram de sair do local a pedido da Polícia Militar por volta das 9h e depois se aglomeraram na Rua Mauá, na frente do Memorial da Resistência.

O ponto tinha pelo menos 80 usuários. O morador de rua Thiago Alves da Silva, de 28 anos, era um dos que ocupavam a calçada no local. Ele estava na Cracolândia desde o fim de abril, após sair da prisão por associação criminosa. “Eu era viciado e me pediram pra levar uma bolsa que estava cheia de pedras em troca de duas pedras. E aí a polícia começou a me perseguir”, disse.

Silva diz que a ação prejudicou os moradores de rua, que se sentiam “à vontade” no quarteirão do fluxo e que agora não têm para onde ir. “Eu sei que eles oferecem ajuda, mas o crack é um problema da mente. Muita gente tenta sair e não consegue. Então pelo menos ali no fluxo a gente ficava invisível, entre iguais. Agora, tendo que circular no meio das pessoas, todo mundo olha torto, não passa perto, atravessa para o outro lado da calçada quando vê que a gente está chegando”, diz.

O morador de rua Roberto Manuel Veríssimo, de 46 anos, também estava na Rua Mauá, sem rumo. “Estou há mais de 20 anos na rua e estava participando do programa De Braços Abertos. Eles não sabem o que fizeram. Vai ter ‘nóia’ surtado que vai começar a roubar”, diz ele.

Mesmo com presença policial e de agentes de saúde no entorno, - o governo do Estado fala em 200 agentes nas ruas - esses novos fluxos também tinham a presença de drogas e traficantes. Um homem que se identificou como “Negão” pediu que a reportagem saísse do local sob risco de violência. “Melhor vocês saírem daqui, não fica fazendo muita pergunta, não”, disse. Diversos usuários faziam uso da droga com o cachimbo no local.

No início da tarde também havia concentração de moradores de rua na Praça Princesa Isabel, e também na frente de uma agência do Santander, na Avenida RIo Branco. Mais cedo também houve fluxo em um posto de gasolina e também no cruzamento entre a Avenida Duque de Caxias e a Rua Santa Ifigênia.

O secretário estadual da saúde David Uip disse ao Estado que a dispersão era "esperada" e que "tudo foi muito bem planejado". "Os agentes da saúde e sociais estão percorrendo as ruas do entorno, tentando convencer usuários a procurar ajuda e tratamento. Só no Cratod já tivemos 30 novos pacientes matriculados", disse. Ele também prometeu abrir mais 150 leitos para internação de usuários e acesso às comunidades terapêuticas. Há hoje 3,4 mil leitos. 

A entrevista com o secretário foi interrompida por uma usuária de droga, que fez um protesto. "Estão colocando polícia para bater em nós. Somos seres humanos. Isso aqui é um desserviço. Vocês não têm coração, não, de verdade. Vocês não têm neto, não tem filho. Nunca dormiram no chão na vida". Uip rebateu: "a senhora vai ser ajudada", mas a mulher saiu do local, irritada.

A Prefeitura destacou ainda que ofereceu cerca de 600 almoços no centro de acolhida do complexo Prates - o local oferece, normalmente, só 300 almoços. 

Prejuízo.  Entre os comerciantes o clima era de otimismo em relação ao futuro, mesmo entre aqueles que tiveram prejuízo. O responsável por um posto de gasolina na Avenida Rio Branco, Juarez Ribeiro, de 48 anos, conta que o estabelecimento, que opera 24 horas por dia, precisou ficar fechado entre a madrugada de domingo e a manhã desta segunda-feira, 22. “ Chamamos a polícia, mas a dispersão só aconteceu por volta das 5h. Os usuários tomaram o posto inteiro. Sem contar o perigo de  ter gente fumando dentro de um posto de gasolina. Por sorte não mexeram em nada”, disse ele, que calcula um prejuízo de R$ 15 mil pelo tempo parado. “Mas se eles mantiverem o policiamento e evitar novas aglomerações, deve melhorar”, diz.

O comerciante e professor de História Anderson Ricardo da Silva, de 38 anos, precisou fechar o bazar beneficiente em que atua na Rua Mauá, por causa da grande aglomeração de moradores de rua. “Acho que esse momento inicial vai ser pior, porque vai ter usuários em abstinência, agora que o tráfico vai ficar mais dificíl de entrar. E eles vão cometer roubos, furtos. Mas a tendência é que tudo melhore ao longo do tempo”, diz. “Foi uma operação importante para o morador do bairro e para os clientes”.

O proprietário de um restaurante na Avenida Rio Branco, na frente da Praça Santa Isabel, Ronaldo Saad, de 46 anos, ficou decepcionado com o fluxo que se formou na frente de seu comércio. “Hoje deu até um prejuízo. Mas eles têm de controlar pra não espalhar. Não adianta só dispersar, tem que saber para onde estão indo essas pessoas”, diz.

Críticas. O artista plástico e militante do movimento A Craco Resiste, Raphael Escobar, disse que a ação da polícia militar foi "semelhante" à feita em outras gestões, "só que com artilharia muito mais pesada". "Tiraram os moradores de rua de um lugar para  ficarem em outro, espalhados por aí. A Cracolândia não acabou, só se repartiu em várias partes no centro", disse. Ele argumenta que "não teve nenhum planejamento de cuidado" com as pessoas e que muitos moradores de rua só aceitaram fazer tratamento para se proteger da polícia. 

 

 

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