Um desembargador chamado Totó

Na agenda apertada de Antonio Carlos Malheiros sempre há tempo para tirar a toga e usar a simplicidade para alegrar crianças internadas no Emílio Ribas

Vitor Hugo Brandalise / TEXTO e Epitácio Pessoa / FOTO, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Eram 14h30 de quarta-feira quando o desembargador Antonio Carlos Malheiros, de 59 anos, agachou e encarou a garota Alexandra, de 6, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. "Você consegue ler o que está escrito aqui?", ele perguntou, apontando o crachá, que balançava pendurado no avental colorido. "É Antonio...", respondeu a menina, com voz tímida. "Sim, querida, é Antonio. Mas você vai me chamar diferente." O magistrado, então, fez uma pausa teatral, tirou do bolso um nariz de palhaço e anunciou, sorrindo: "Vai me chamar de Totó". A criança riu até se dobrar.

Antonio Carlos Malheiros, professor de três universidades, coordenador da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), presidente por dois mandatos da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, coordenador nacional de campanha do Conselho Nacional de Justiça. E também, nos momentos de maior simplicidade - quando "realmente nos tornamos nós mesmos", nas palavras dele próprio -, o Totó. "Não é simples, bonito? É natural, apelido que gosto e no qual me reconheço."

Um carinhoso apelido que serve, principalmente, para se aproximar. Desde 1997, o desembargador é contador de histórias voluntário da Associação Viva e Deixe Viver, que treina leitores para crianças internadas em 87 hospitais do País. No caso de Malheiros, quem ouve a experiente voz todas as semanas são crianças do Emílio Ribas - a maioria, portadora de HIV. "Esqueço tudo quando estou com o livro aberto no colo, contando histórias que ajudam a enfrentar horas difíceis. E, geralmente, termina em gargalhadas."

Nem sempre foi assim. Nas primeiras histórias que leu, Malheiros chegou a ser advertido pelas enfermeiras. Diziam que ele lia Peter Pan "como se pronunciasse votos num julgamento". "Terminei a primeira história, olhei para a criança e vi cara de choro. Pensei: "não vai dar certo"", lembrou, bem-humorado. "Mas as crianças se estouraram de rir quando, sem querer, chutei a mesa e derrubei uma montanha de bacias de metal. Foi assim, desajeitado, que percebi que era preciso naturalidade. Com as crianças, aprendemos a simplificar."

Na rua. "Precisaria de dias de 80 horas", diz o desembargador, que nasceu e sempre viveu no Jardim Paulista, zona sul da capital. Para entender o porquê, basta passar parte do dia com ele. Além dos 50 votos de sessões de julgamentos semanais, há palestras - na quarta-feira passada, em Mirassol, a 450 quilômetros da capital -, eventos como a comemoração dos 20 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, espremida em 25 minutos no meio da agenda, aulas nas faculdades e, para terminar, o voluntariado. "Melhor momento do dia."

Serviços voluntários, aliás, acompanham Malheiros desde os 13 anos, quando ingressou num grupo do Colégio São Luís que visitava moradores de rua. Foi no percurso entre as Praças da Sé e da República, no centro, que conseguiu quebrar as primeiras "barreiras de preconceito" - algo que, diz, "todo juiz deveria fazer". "Magistrado tem de sentir o gosto, o cheiro dos problemas antes de decidir. Tem de ir à rua, conhecer sua comunidade. Não pode ficar encastelado, imaginando que lida apenas com papel."

Episódios de sua vida mostram que não fala da boca para fora. No fim dos anos 1970, o jovem advogado ia tanto às ruas depois do expediente que, certa vez, chegou a dormir num banco da Praça da Sé. "Estava cansado demais, depois de um dia de trabalho. Cochilei por uma hora no meio de um grupo de 15 adolescentes. Acordei sobressaltado, com o preconceito gritando." Pulou do banco e apalpou todos os bolsos. Mas tudo estava lá. E o que viu ao redor o impressionou. "Os 15 garotos deitavam num círculo em volta do banco. Quando me despedi, disseram que era para me proteger. Senti vergonha e, ali, caiu parte do preconceito."

Algo semelhante ocorreu quando passou a visitar, como voluntário da Pastoral da Saúde, doentes do "Hospital da Aids", como era conhecido o Emílio Ribas nas décadas de 1980 e 1990. "Ali, desenvolvi o conceito de família formada pelo afeto, que virou dissertação de mestrado." A ideia surgiu quando cuidava de um cantor homossexual portador de HIV, em estágio terminal - sob os olhos do voluntário, ele morria, mas sua mãe negava-se a entrar no quarto, pois não o tinha "perdoado por ser homossexual". "Então, entrou no quarto um homem engravatado e beijou a testa do rapaz com carinho. Eu olhei para a mãe, para o rapaz e me perguntei: "Qual dos dois é sua família?" Caiu outro preconceito", contou. "Entender o sofrimento ajuda a decidir. Vira parte da formação pessoal e profissional."

Senhor diversidade. A forma como Malheiros trata as pessoas o credencia, entre amigos, a receber outro apelido: "Senhor Diversidade". "É sempre um sorriso no rosto, oportunidades concedidas, o apoio estampado na cara", conta o publicitário Valdir Cimino, seu parceiro na contação de histórias. "É referência em sua área, mas nunca deixa de dar "bom dia" ao porteiro, ao faxineiro, ao paciente."

Lembra palavras que Malheiros repetiu em dois momentos, na quarta passada. "Olhar de igual para igual requer simplicidade. Seja decidindo um julgamento ou contando histórias, fazendo voz de gago, vestido de palhaço."

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