Imagem Jairo Bouer
Colunista
Jairo Bouer
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Um cérebro que muda

Um dos temas mais abordados por esta coluna ao longo de 2014 foram os impactos que as novas tecnologias podem ter na saúde e no comportamento das pessoas, sobretudo das mais jovens. Assim, o último artigo deste ano traz duas novas pesquisas que ajudam a pensar no tamanho do problema.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2014 | 02h01

Um trabalho da Universidade de Zurique, na Suíça, publicado no periódico Current Biology e divulgado na semana passada pelo jornal inglês Daily Mail, mostra que usuários de smartphones podem estar sofrendo alterações na forma e na função de partes do seu cérebro. Eles estariam desenvolvendo mais uma área conhecida como córtex somatossensorial, responsável pela integração de estímulos táteis com alguns tipos de movimento.

Ao usar diariamente tecnologias com telas sensíveis, como celulares e tablets, os jovens estariam demandando um controle cada vez mais fino do movimento de suas mãos e dedos. Essa exigência inédita na história da evolução humana estaria moldando novas funções. Como se sabe, nosso cérebro é um órgão bastante plástico, podendo se modificar e se adaptar a novas demandas.

De acordo com a pesquisa, quanto maior e mais frequente é o uso das telas interativas, maior o tamanho dessa área cortical, o que mostra uma conexão mais intensa do cérebro com as mãos. Assim, sensibilidade motora e tempo de resposta ao estímulo ficaram bem mais rápidos. O problema é que muitas dessas alterações podem levar, no futuro, a problemas como distúrbios motores (distonias), espasmos e dores crônicas.

Já outra pesquisa, uma análise de 80 estudos globais sobre uso de internet, que avaliou 31 países distintos, mostra que 6% dos usuários de internet no mundo podem estar dependentes, apresentando dificuldade para pegar no sono e sinais de ansiedade quando ficam desconectados.

Os pesquisadores da Universidade de Hong Kong, na China, combinaram resultados dessas pesquisas com dados como PIB (Produto Interno Bruto, um dos indicadores de atividade econômica dos países), número de usuários e penetração da internet. As taxas de dependência mais altas foram encontradas no Oriente Médio (Israel, Líbano, Turquia e Irã), na ordem de quase 11%. As mais baixas estão no Norte e no Oeste da Europa, com 2,5%. A América do Sul não foi avaliada.

O resultado do trabalho foi publicado na revista especializada Cyberpsychology, Behavior and Social Networking e divulgado na semana passada também pelo jornal Daily Mail.

Os dois trabalhos reforçam a percepção de que, com o uso cada vez mais frequente das novas tecnologias pela população, principalmente pelos mais jovens (que têm maior dificuldade de controle de impulsos e de tempo de uso), pode se tornar mais importante discutir limites e possíveis estratégias de intervenção em caso de excessos.

Se os benefícios da tecnologia são inegáveis, eventuais riscos para a saúde e o comportamento podem acompanhar esses ganhos. Um trabalho emblemático deste ano sugere que jovens que interagem muito tempo nas redes sociais podem ter maior dificuldade de identificar emoções quando se encontram com amigos e familiares na vida real.

Da mesma forma que durante o ano trouxemos inúmeras pesquisas que mostram que educação e prevenção são necessárias nos comportamentos ligados ao consumo de álcool, cigarro e sexo, com o uso de tecnologia se caminha para uma posição semelhante. Sem trabalhar esses conceitos, cada vez mais pessoas podem se atrapalhar e enfrentar problemas em sua vida.

Aproveito o espaço para desejar um 2015 com muita saúde para todos os leitores! Até a próxima semana!

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.