Um atraso justificado

Chefe, cheguei atrasado ontem, mas comecei a trabalhar antes do horário de rotina. Às 7h15, em vez de preparar o café antes do banho, eu já estava na rua. E na rua fiquei por 36 minutos, no ponto de ônibus na Avenida Pompeia. Eu, um grupo de senhoras tão simpáticas quanto indignadas com a demora do coletivo e uma empregada constrangida de repetir à patroa que o transporte atrasou. Esperamos 20 minutos pelo Jardim Pery Alto. O motorista do ônibus lotado sabia que estava atrasado e não quis perder tempo: passou direto pelo ponto. Esperamos mais 11 minutos até o próximo. Cheguei no jornal às 8h18, um atraso de 18 minutos que você entende, não é, chefe? Pode deixar que eu venho de carro hoje, fazendo de conta que um pequeno atraso e um pouco de poluição não atrapalham ninguém... / IURI PITTA

, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

NO MEIO DA POEIRA

A proposta de me deslocar de bicicleta do Paraíso para o Limão soou como um desafio. Teria de descobrir um caminho que escapasse dos ônibus - daí excluí a Avenida Paulista do trajeto -, mas sabia que não fugiria dos buracos. E, pode ter certeza, em cima de uma bike, eles se multiplicam e parecem bem maiores do que quando se está dentro de um carro. De bike, sabia também que não fugiria da poeira, do barulho e do trânsito. E com todos esses fatores, e sem ciclovia em nenhuma parte do caminho, pedalar deixou de ser um prazer. / VALÉRIA FRANÇA

TENTATIVA FRUSTRADA

Saí de casa pontualmente às 10 horas para pegar o ônibus Jardim Pery Alto, com direção ao Terminal da Barra Funda. Esperava chegar lá em dez minutos e pegar o fretado para o Estado das 10h30. Teria tempo de sobra para a reunião das 11 horas. Mas, ao contrário do planejado, às 10h30 continuava esperando no ponto. Refiz os planos e decidi seguir até a Barra Funda e lá tomar um lotação. Mas, às 10h40, continuava no ponto. Preocupada, vi um outro Lapa se aproximando com itinerário diferente e ponto final na Barra Funda. Entrei. Mal sentei e descobri que o ônibus daria a volta no bairro de Perdizes inteiro antes de seguir para o terminal. Às 10h50, já à beira do desespero - faltavam dez minutos para a reunião -, pedi ao motorista para abrir a porta antes do ponto e desci. Atravessei a rua e tomei um táxi no sentido contrário. Cheguei às 11h03 no jornal. / LUCIANA GARBIN

COLCHA DE RETALHOS

Ontem, vim para o trabalho de skate. Ok, concordo que é um meio de transporte pouco usual, mas após os 35 minutos entre minha casa e o Estado comecei a pensar que o skate poderia muito bem ser utilizado com mais frequência pelos paulistanos. Isso, no entanto, não significa que não houve percalços no trajeto. Eles existiram, e foram muitos. Em primeiríssimo lugar, estão as calçadas esburacadas e desniveladas que encontrei no caminho e que me fizeram carregar o skate nos braços em vários trechos. Existe uma lei municipal que determina que todos os passeios devem ser padronizados e acessíveis, mas ela não é nem cumprida pelos proprietários dos imóveis nem fiscalizada corretamente pela Prefeitura. O resultado é que as calçadas são quase uma colcha de retalhos - e, se eu tive problemas com o skate, imagine quem precisa passar por esses locais numa cadeira de rodas? / RODRIGO BURGARELLI

DESCULPEM OS IDEALISTAS

Não foi difícil, mas não é fácil. Para quem mora fora da capital, ir para o trabalho sem o carro é ainda um pouco mais complicado. Para conseguir cumprir o compromisso de uma reunião às 11 horas no jornal, que fica no bairro do Limão, planejei sair de casa, em São Caetano, uma hora mais cedo do que normalmente faria. Em menos de 1 minuto lá estava o ônibus com a placa Sacomã (iria para lá pegar o Metrô ou o Fura Fila). Eram 9h20. Me assustei ao subir pela porta da frente, com o dinheiro na mão, me deparar com um cobrador, profissão há muito extinta no resto do mundo. Às 9h29, cabe a ele me orientar como devo fazer para pegar o Fura Fila sem pagar mais uma passagem. Subo na bonita estação, faço em 1 minuto meu primeiro cartão do bilhete único, que mesmo sem ser carregado me fará andar de graça no ônibus do Fura Fila (Expresso Tiradentes). Chego à plataforma às 9h40, com um painel anunciando que a próxima partida será 4 minutos depois. Ela acontece em ponto. O trajeto é rápido. Às 9h56, desembarco na Estação Pedro II do Metrô. Atravesso pela passarela o sujo Tamanduateí. Dali observo a Ligação Leste-Oeste no Dia Mundial Sem Carro congestionada como sempre. Embarco às 10h05 num trem quase vazio da Linha Vermelha; às 10h14 desembarco na Estação Barra Funda. Tenho dificuldade para descobrir a plataforma onde para o ônibus fretado que me levará para o Estado. O ônibus atrasa 6 minutos, a temperatura no interior beira os 50 graus, mas às 10h50 chego ao trabalho. 90 minutos num trajeto que faria de carro em 50. Mas sem sustos. O que não imagino é voltar para casa à meia-noite sem carro. Desculpem os idealistas, mas, bom, ainda bem que não é a noite sem carro... / ROBERTO GAZZI

CARONA AMIGA

A falta de prática em pegar carona me fez passar vergonha por uns cinco minutos com o polegar erguido na Avenida Paulista. O melhor era esperar ao lado de carros estacionados e pedir quando os donos chegavam. Fiz isso. Mas aí descobri que ninguém daquela região costuma ir para a Marginal do Tietê - pelo menos é o que diziam.

Resolvi caminhar até a Avenida Sumaré. Aí surgiu o administrador de empresas Walter Hus, de 58 anos, parado no acesso para a Avenida Sumaré ao lado da Praça Ricardo Ramos. Walter Hus me deixou perto da Ponte Julio de Mesquita Neto. Já conseguia ver o prédio do Estado ao longe. Mas essa foi a pior parte: calçadas ruins e fumaça no rosto. Uma hora e quarenta minutos de viagem; uma hora de atraso para o trabalho. Ainda bem que já combinei com antecedência a carona para voltar para casa. / RENATO MACHADO

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