FELIPE RAU/ESTADãO
FELIPE RAU/ESTADãO

Um ano após desabamento de prédio no Largo do Paiçandu, moradores vão para outras ocupações

Edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, pegou fogo e desabou no dia 1º de maio de 2018. Parte das vítimas diz que valor do auxílio-aluguel, de R$ 400, é baixo e não consegue pagar por moradia. Promotoria quer mais segurança

Felipe Resk e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Acomodada em uma suíte no primeiro andar de um hotel desativado, a auxiliar de limpeza Suzana Santiago, de 43 anos, evita olhar pela janela. Em um terreno bem na frente do imóvel, mas do outro lado da Avenida Rio Branco, no centro, ficam à mostra pedregulhos, pedaços de madeira e ferros retorcidos. São destroços do que, há um ano, ela chamava de casa: o Edifício Wilton Paes de Almeida.

O prédio no Largo do Paiçandu era ocupado por sem-teto do Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM) e desmoronou após um incêndio na madrugada de 1.º de maio de 2018. Cinco adultos e duas crianças morreram. Outras 291 famílias ficaram desabrigadas. “É muito triste relembrar tudo aquilo”, diz Suzana, que, vítima do desastre, recebe auxílio-moradia de R$ 400 desde então.

Apesar do benefício, ela e outros sem-teto voltaram a viver em invasões do centro. Em geral, alegam falta de opção. A auxiliar de limpeza conta que acampou por três meses no Paiçandu. Depois, encontrou uma casa na Penha, na zona leste, mas ficou desempregada e não pôde mais arcar com o aluguel de R$ 600. “O valor do auxílio é baixo, o jeito foi procurar outra invasão.” 

Invadido em 2011, o hotel na Rio Branco é administrado pelo movimento Frente de Luta por Moradia (FLM) e foi um dos 51 imóveis vistoriados pelo Município após a tragédia. Lá, a Defesa Civil viu divisórias de madeira que poderiam propagar fogo, além de botijões de gás. Parte das recomendações foi cumprida, como o treinamento de brigada de incêndio.

“No prédio que caiu, a energia era roubada do farol. Aqui, não. É tudo certinho e organizado”, afirma Suzana, que diz se sentir segura agora. “Foi uma experiência horrível. Perdi tudo que eu tinha e não consegui recuperar quase nada”, conta. No quarto, ela guarda todos os seus pertences: uma cama, um fogão e um botijão de gás.

O vigilante Almir Cardoso, de 56 anos, morava no térreo do prédio de vidro e também se mudou para a ocupação da frente. “Fiquei com a roupa do corpo, tive de recomeçar do zero”, diz. Segundo conta, ele paga uma taxa de R$ 220 por mês, para limpeza e manutenção do local, mas não vê problema - no caso do edifício que caiu, a cobrança é alvo de investigação, ainda não concluída, por extorsão. “Onde acho um aluguel de R$ 400?”

Já Lohany Mickely, de 38 anos, foi para uma ocupação perto do Teatro Municipal. “É 100% seguro, tem extintor e todo mundo passou por treinamento”, diz a ex-moradora do 3.º andar do Wilton Paes. No dia do incêndio, ela havia tomado remédio para dormir, mas acordou por causa do seu cão, Maylon. “Ele começou a latir e a puxar. Não fosse por isso, acho que não estaria viva.”

A principal preocupação dos sem-teto é se o auxílio continua após completar um ano. A Prefeitura diz que assumirá os custos até as vítimas do Paiçandu serem contempladas em programa de moradia. Hoje, elas aguardam em uma fila de 2.300 famílias por habitação de interesse social no centro. “Por questão de justiça social, não irão furar a fila”, diz o secretário municipal de Habitação, Aloísio Pinheiro.

Segundo ele, 222 das 291 famílias do Paiçandu já se recadastraram para continuar a receber o benefício. Para realizar o procedimento, é preciso dar um endereço de referência. A pasta informou que, se for constatado que alguma família que recebe o auxílio-aluguel vive em ocupações, o benefício será cancelado. Em paralelo, a Prefeitura começou a refazer vistoria em ocupações analisadas em 2018, para verificar se as recomendações de segurança foram cumpridas.

Na semana passada, o Ministério Público Estadual ingressou com 12 ações civis públicas para obrigar proprietários de imóveis invadidos e a Prefeitura a bancar reformas de segurança. A primeira liminar foi concedida pela Justiça na sexta. 

Destino do terreno, que pertence à União, segue sem definição

Desde que os 24 andares do Edifício Wilton Paes de Almeida ruíram em chamas na madrugada do dia 1.º de maio de 2018, o Largo do Paiçandu vive repleto de cicatrizes. O terreno do prédio, que já foi sede da Polícia Federal, virou um amontoado de entulhos, mal escondidos detrás de tapumes, em pleno centro de São Paulo. Mesmo passado um ano da tragédia, o destino do local segue incerto.

Encravado na esquina da Rua Antônio de Godói com a Avenida Rio Branco, o terreno pertence à União e foi cedido à Prefeitura de São Paulo. A Secretaria de Coordenação e Governança do Patrimônio da União (SCGPU), por meio do Ministério da Economia, pretende solicitar a revogação da guarda provisória - ou seja, pedir a área de volta. O órgão até já diz elaborar “um estudo de possíveis destinações para o terreno”.

Por sua vez, a gestão Bruno Covas (PSDB) pretende manter a ideia anunciada logo após o desabamento: construir um edifício de moradia social, mas com uma mudança. Os ex-moradores não terão mais prioridade para viver na unidade, como chegou a ser dito na época.

Ao Estado, o secretário municipal de Habitação, Aloísio Pinheiro, afirmou desconhecer a intenção da União de retomar o imóvel e que não recebeu um “comunicado formal” sobre o cancelamento. “Para mim, está tramitando para a transferência da área para a Prefeitura”, diz. “Depois da queda do prédio, houve o pedido formal (da posse). Tinha um compromisso, que precisa ser formalizado.”

Segundo Pinheiro, o entulho teria sido mantido no terreno justamente para assegurar que não houvesse nova invasão. “Assim não permite construção de acampamento”, diz.

O desabamento do chamado prédio de vidro atingiu outras duas edificações. Colada muro com muro, a Igreja Martin Luther está, há um mês, em restauro e reconstrução. A obra, na melhor das hipóteses, deve ser concluída em 2020.

O outro vizinho, o Edifício Joamar, ainda hoje tem as paredes marcadas pelo pretume do incêndio. Está quase totalmente desocupado, em reforma. O zelador de lá, Josimar Lopes de Lima, de 49 anos, lembra bem da madrugada do dia 1.º, em que acordou com os estalos de vidros espatifando no prédio do outro lado da rua. 

Foi a esposa quem ligou para os bombeiros, segundo conta, enquanto ele tentava atenuar o fogo, atirando água pela janela com uma mangueira. “Os bombeiros chegaram, tocaram a campainha e mandaram pegar a minha família e descer”, relata. “Uns 20, 30 minutos depois, o prédio (da frente) caiu.”

Com a pressa, Lima não conseguiu achar o gato Ninho, cujo corpo somente foi localizado quatro dias depois. “Peguei só uma pastinha com os meus documentos e saí assim, de chinelo, bermuda e camiseta.”

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