Ultimato e prisão de parentes elevam pressão da polícia a traficantes no Rio

Após anúncio de que PM estava pronta para invasão, tensão no Complexo do Alemão cresceu; por volta de 22 horas, tiroteio prosseguia

Alfredo Junqueira, Clarissa Thomé, Felipe Werneck, José Maria Tomazela e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

RIO

A polícia do Rio ampliou ontem o cerco a traficantes e chegou a dar um ultimato até o anoitecer para que os 500 criminosos que permaneciam escondidos no Complexo do Alemão, na zona norte, se entregassem. Às 22 horas, as tropas seguiam em posição nos acessos e bandidos atiravam do alto dos morros, com balas traçantes - não havia informações sobre mortes. Para asfixiar ainda mais o tráfico, quatro mulheres de líderes do tráfico foram presas.

No terceiro dia de cerco de forças policiais e militares ao Complexo do Alemão, o coordenador do AfroReggae, José Junior, subiu a comunidade da Grota - onde estavam concentrados alguns líderes criminosos - para tentar negociar uma rendição. Segundo ele, parte dos criminosos estaria disposta a se entregar. Durante sua permanência na favela, houve diversas trocas de tiros entre autoridades e traficantes. "O clima está tenso. Mas aquele confronto pesado que todo mundo estava esperando, acho que isso não vai acontecer", disse Junior. "Recomendei que se entregassem. Não sei se isso vai acontecer. Alguns querem, outros não. Mas aquela famosa marra, isso eu não vi."

A polícia e o Exército chegaram a estabelecer um local para a entrega dos criminosos, na descida do morro. Mas até o fim da noite, ninguém se apresentou.

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), o defensor Leonardo Rosa e o pastor Antonio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz, se ofereceram ao governador Sérgio Cabral (PMDB) para formar uma comissão para intermediar rendições. "É melhor do que o banho de sangue", afirmou o deputado. O grupo não recebeu resposta do governo sobre a proposta.

Ao longo do dia, PMs detiveram dezenas de pessoas que tentavam sair pela Rua Joaquim de Queiroz, uma das principais vias do complexo. Todas foram algemadas e encaminhadas para a 21.ª DP (Bonsucesso) para averiguação, deixando parentes desesperados, como a viúva Maria das Dores Silva de Souza. Com a carteira de trabalho do filho, Alex Silva Pereira, de 20 anos, ela tentava convencer policiais da inocência do rapaz. Não conseguiu. "Ele estava indo para praia, é trabalhador. Trabalhou até nas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)."

Desde o último domingo, 228 pessoas foram presas e detidas e 50 mortas. Muitos moradores, apavorados, saíram ontem da favela carregando roupas, TVs e até ventiladores. Pais levavam filhos pelas mãos e corriam quando atravessavam as ruas onde se concentraram as trocas de tiros.

Família. Outra iniciativa para tentar minar o ânimo dos criminosos foi deter parentes. Viviane Sampaio, de 32 anos, casada com Alexander Mendes da Silva, o Polegar, um dos escondidos nos morros, foi presa em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste. Na sexta-feira, foi detida Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, casada com Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, suposto mandante da onda de ataques no Rio. Ele cumpre pena em presídio federal e a suspeita é de que tenha passado a ordem em visita íntima. Beatriz da Silva Costa de Souza, apontada como amante de VP, também foi presa.

Os parentes dos criminosos são acusados de lavagem de dinheiro e associação para o tráfico. "Dinheiro ilícito é repassado para a família e em visitas íntimas, que não podemos gravar, essas mulheres são usadas como pombo-correio", afirmou o chefe da Polícia, Allan Turnowski.

Antes do início dos ataques, já estavam presas as mulheres de Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, e de Isaías da Costa Rodrigues, o Isaías do Borel. A mulher do traficante Márcio Batista dos Santos, o Dinho Porquinho, é considerada foragida. A Polícia Civil informou que outras serão detidas. "É outro enfoque, é a busca do dinheiro do tráfico para enfraquecer a quadrilha. Não adianta a gente retirar o fuzil se continuar com dinheiro. Sem dinheiro, sem território, ausência do tráfico", afirmou Turnowski.

A maior baixa ocorreu na família de Polegar. Além de Viviane, foram presos o pai dela, Genival, o irmão Vitor e a tia Lúcia Maria Souza Melo. "Todos têm imóveis no seu nome. Foram presos porque, de alguma forma, davam sustentação à atividade criminosa", afirmou o delegado da 9.ª DP, Alan Luxardo.

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