Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Última joia da Paulista, casarão terá concessão para restauro e deve virar museu

Palacete Joaquim Franco de Mello é a última construção ainda em pé da primeira fase residencial da Avenida Paulista

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2021 | 05h00

SOROCABA - O governo de São Paulo lançou um chamamento público para estudos de concessão à iniciativa privada do Palacete Joaquim Franco de Mello, última construção ainda em pé da primeira fase residencial da Avenida Paulista, no centro da capital. O objetivo é restaurar o casarão para abrigar o Museu da Gastronomia do Estado de São Paulo. Objeto de litígio entre a família e o governo estadual, o imóvel sofreu processo de deterioração e atualmente está fechado.

O ato de chamamento, pelas secretarias estaduais de Cultura e Economia Criativa, e Projeto, Orçamento e Gestão, foi publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo na sexta-feira, 16. Os interessados podem se inscrever até o dia 2 de agosto e acessar os regulamentos nos sites das secretarias. A concessão será por 35 anos.

Além de restauro e conservação da residência, o estudo prevê a edificação de um anexo à construção atual, que ocupa terreno de 2 mil metros quadrados. O imóvel é tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) e, também, pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (Condephaat) do Estado desde 1992.

De acordo com Frederico Mascarenhas, chefe de gabinete da Secretaria de Cultura, o plano é transformar o casarão e seu entorno em uma referência gastronômica. "A cidade de São Paulo é um polo gastronômico nacional e a gastronomia é um dos pilares da economia criativa. A ideia é atrair empreendedores interessados em recuperar e explorar esse espaço, que é um dos mais nobres da capital", disse.

A construção do anexo visa dar a estrutura necessária para a exploração do potencial econômico que deve surgir com a revitalização do palacete. "O terreno é amplo e dá para fazer o anexo preservando o visual do casarão e do entorno. Como são prédios tombados, nós fomos atrás do aval dos patrimônios históricos municipal e estadual", explicou.

A nova tentativa de restaurar o palacete acontece após o fracasso de uma parceria entre o Estado e o Serviço Social da Indústria (Sesi) de instalar o Museu da Ciência no local. O acordo foi anunciado em novembro de 2019 pelo governo estadual, porém, segundo o chefe de gabinete, o advento da pandemia em 2020 levou o Sesi a desistir do projeto. Antes, havia sido proposta a instalação de um museu LGBT no local.

Mascarenhas lembra que os novos estudos indicaram a concessão como melhor forma de recuperar um patrimônio relevante da capital. O avanço do projeto depende do interesse dos futuros parceiros. "Temos várias experiências bem sucedidas, entre elas a concessão do Zoológico e Jardim Botânico, concluída em fevereiro deste ano."

O número 1919

Localizado no número 1919 da Paulista, o palacete é o único imóvel remanescente da primeira fase residencial da avenida, entre os anos de 1891 e 1937 quando membros da alta sociedade paulistana, formada por fazendeiros do café, donos de indústrias e comerciantes abastados, ali ergueram suas elegantes residências.

O casarão foi construído em 1905, pelo construtor português Antônio Fernandes Pinto, em estilo eclético, com influências da arquitetura europeia. O imóvel de 600 m2 de área construída possui 35 cômodos internos e uma grande área verde, incluindo um jardim lateral, totalizando 4,7 mil m2.

O palacete é considerado de alto valor arquitetônico por reunir exemplos concretos das diferentes formas de construção da época. As torres são no estilo mourisco, os capitéis e frontões de influência provençal e o telhado com mansarda possui detalhes renascentistas. Na entrada, ficam a sala de visitas e o escritório, no centro a sala de jantar e os quartos e, nos fundos, cozinha, despensa e banheiros. Foi uma das primeiras casas paulistanas a ter banheiro com água encanada. O prédio tem ainda uma biblioteca no subsolo.

Durante muitos anos, o casarão foi a residência da família do coronel Joaquim Franco de Mello, um rico fazendeiro, que fundou uma cidade no interior e deu a ela o nome de sua esposa, Lavínia. Conta-se que o coronel não ficou satisfeito com a obra e mandou buscar na França um arquiteto para deixá-la ao seu gosto. O palacete foi reinaugurado em 1912. Franco de Mello e a esposa ocuparam o imóvel com os três filhos do casal, Raphael, Rubens e Raul Franco de Mello.

Depois de amargar um período de abandono e sofrer vandalismo, em 2006, o casarão voltou a ser ocupado por um descendente da família, Renato Franco de Mello. O herdeiro conservou o requintado mobiliário que ornava os salões, como o jogo de sofás Chesterfield de couro amarelo e banco de jacarandá do século 19, em estilo dom João V. Com a morte de Renato em 2019, o estado obteve a posse definitiva do palacete.

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