Ubiratan Guimarães admitiu: houve ordem. E nunca repetiu

Coronéis do massacre foram afastados e admitiram que foram responsáveis por ações em depoimentos

O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2012 | 03h04

Três horas da madrugada do dia 3 de outubro de 1992. No canteiro central da Avenida Cruzeiro do Sul, no Carandiru, há um orelhão - a telefonia celular não existia na época. Um grupo de jornalistas se aglomera em torno do aparelho. Um dos repórteres, Fausto Macedo, telefona para a casa do então secretário da Segurança Pública, Pedro Franco de Campos. "Secretário, dizem que mataram 40 presos na rebelião. É verdade?" Campos responde: "Quem disse que foi só isso?" Era a primeira autoridade a dar a dimensão do que havia acontecido horas antes no Pavilhão 9.

Às 18 horas do dia 2, familiares de presos, padres e jornalistas esperavam notícias diante do presídio. Um policial me surpreende: "Fiz umas fotos aí dentro, interessa?" Dois dias depois, as imagens reveladas mostrariam presos nus carregando seus colegas mortos e detentos sem roupa com tiros nas costas, o que podia indicar execução, pois a primeira coisa que um preso faz quando se rende é tirar a roupa para ser revistado. Por volta das 20 horas, aparece na avenida o então capitão Wanderley Mascarenhas. Diz que 80 presos haviam morrido. Ninguém lhe dá ouvidos. Era preciso confirmar a informação. O jeito foi verificar nos hospitais para onde a PM levaria os baleados. Retiraram da prisão só oito detentos - eles morreram em um pronto-socorro. E foi oito o número de mortos que os jornais publicaram no dia seguinte.

À meia-noite, um preso deixa a Detenção. Sua pena acabara naquele dia. "Morreu mais de cem." Ninguém acredita. Quatro horas depois, a Tropa de Choque deixou o presídio, escoltando caminhões com os corpos para o Instituto Médico-legal. Só às 17 horas do dia 3 - pouco depois de se terem fechado as urnas da eleição municipal - foi que Campos anunciou o inacreditável número de 111 mortos.

Em menos de uma semana, ele e os coronéis do massacre foram afastados. Em sigilo, um deles, Ubiratan Guimarães, fez um desabafo: "Ofereceram nossas cabeças para satisfazer a opinião pública. Mas nós só invadimos porque havia uma ordem nesse sentido."

Ubiratan nunca mais repetiu isso. Em seus depoimentos sempre disse ter sido o responsável pela ordem de invasão.

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