Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Twitteiro, santista roxo e ''quase rabino''

Goldfarb concilia Física com Judaísmo, dá aulas de História da Ciência, coordena projetos de incentivo à leitura e tem programa de televisão

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2010 | 00h00

Ele é professor. Ele coordena programas de incentivo à leitura do governo do Estado, da Fundação Victor Civita e da prefeitura do Rio. Ele tem um programa de TV. Também é curador do Prêmio Jabuti, conselheiro da biblioteca da Casa das Rosas, twitteiro fervoroso (www.twitter.com/jlgoldfarb), santista fanático e, veja só, comanda os cultos da sinagoga do clube A Hebraica, no Jardim Paulistano. José Luiz Goldfarb, de 53 anos, é um e é muitos. "Sou uma pessoa meio renascentista, de mexer na arte, mexer na ciência, misturar todas as coisas", resume.

Como conciliar tudo isso? Essa é a pergunta que todos lhe fazem. "Quando estou em determinada atividade, meu foco está somente nela. Esqueço todo o resto", costuma dizer, prontamente, a seus incrédulos interlocutores. Talvez a receita contenha ainda uma boa dose de metódica disciplina. Do tipo que cronometra em seu relógio - de bolso - os 60 minutos que duraram a primeira sessão de entrevista ao Estado.

Filho de imigrantes poloneses, o paulistano Goldfarb só deixou São Paulo durante os anos em que estudou História da Ciência no Canadá, no fim dos anos 70. "Brinco que sou uma pessoa que nasceu, vive e espera, com uma vida longa, morrer muito perto de tudo", afirma. Este perto de tudo é a região da Hebraica. Pouco depois de Goldfarb nascer, seus pais se mudaram da Rua Joaquim Eugênio de Lima, no Jardim Paulista, para a Rua Iramaia, próxima do clube. "Frequentava A Hebraica como minha segunda casa, praticando esportes e utilizando a biblioteca", conta. Depois que casou, mudou-se para o bairro vizinho Itaim-Bibi. "Mas ainda vou a pé ao clube."

Livros.[ ] [/ ]A paixão pelos livros vem de cedo. "Meu pai (que era engenheiro) me incentivava muito, comprava livros para mim. Uma vez cismei de ler Shakespeare e ele logo trouxe todos", recorda. E foi em uma das bibliotecas da Universidade de São Paulo (USP), onde se formou físico em 1978, que conheceu sua mulher, Ana Maria - também formada em Física e, assim como Goldfarb é desde 1991, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). "Não à toa, uma das coisas que a gente fala muito hoje em dia é que a boa biblioteca tem de ter convivência, como a Biblioteca de São Paulo (do Parque da Juventude)", comenta.

Em 1984, Goldfarb abriu uma editora, a Nova Stella - hoje nome de seu programa na TV PUC. No ano seguinte, assumiu a Livraria Belas Artes, histórico ponto de encontro da intelligentsia paulistana. Ficou à frente do negócio até 2003 - a loja fecharia três anos mais tarde. "Com a livraria, eu empurrava as pessoas para elas se aproximarem de livros", resume. "A editora não dava lucro, era a vontade do Goldfarb de publicar algumas coisas. A livraria bancava a editora", conta o professor Luciano Guimarães, hoje coordenador da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e, na época, funcionário da Nova Stella.

Por conta de sua experiência como livreiro, desde 1991 Goldfarb é curador do Prêmio Jabuti de Literatura. Com o passar do tempo, passou a se envolver em outros programas relacionados à leitura. Coordena o São Paulo: Um Estado de Leitores, da Secretaria de Estado da Cultura, o Letras da Luz, da Fundação Victor Civita, e o Rio: Uma Cidade de Leitores, da prefeitura carioca. Sempre convidado pela administradora Cláudia Costin, atual secretária de Educação do Rio, quando ela esteve à frente desses projetos. "Sofro de um "problema": sempre entro em algo novo, mas não consigo abandonar o antigo", ri Goldfarb. "Ele tem a vantagem de lidar com 20 assuntos ao mesmo tempo e fazer com que todos aconteçam", elogia Cláudia.

Religião. Seus pais não era judeus praticantes. Goldfarb aproximou-se da religião - que antes, para ele, era mais uma questão de tradição cultural - quando há 18 anos foi procurar um professor de hebraico para conseguir estudar alguns textos científicos antigos. "Em pouco tempo, as aulas se transformaram em um intensivo de cultura judaica", conta. E ele se tornou, como dizem, "o eterno quase rabino" da Hebraica, coordenador dos cultos semanais e das celebrações como a do Ano-Novo Judaico, há duas quartas-feiras. "O judaísmo não exige que haja um intermediário entre você e Deus, então ele é o cara que toma conta da sinagoga", explica o vice-presidente do clube, Bruno Szlak. Ou seja: falta um certificado apenas para Goldfarb ser rabino "de papel passado".

Foi por meio do clube, aliás, que ele ganhou seu afilhado - o enxadrista André Diamant, de 20 anos. Há cinco anos, Goldfarb mantém os estudos e auxilia o jovem, que vem colecionando títulos em competições. "Não faço nem 10% do que ele faz. E ele ainda me ajuda em 90% do que eu faço", diz Diamant. Em meio a tantas ocupações, o "quase rabino" encontra tempo para sua paixão: o futebol do Santos. "Adoro misturar-me à torcida, gritar junto."

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