Turma viaja ao Rio e 25 escapam da tragédia no Sul

Grupo com 40 alunos de Educação Física da UFSM foi visitar instalações da Olimpíada de 2016; sentimento é de dor e alívio

ANTONIO PITA / RIO , O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2013 | 02h02

Divididos entre a dor de perder os amigos e o alívio de não presenciar o horror da tragédia na Kiss, um grupo de 40 alunos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) está no Rio desde o domingo, dia 27. Alunos do curso de Educação Física, o grupo partiu da cidade gaúcha na noite de sexta-feira para uma visita às instalações dos Jogos Olímpicos de 2016. Naquela madrugada, por volta das 5 horas, a notícia do incêndio chegou pelo celular, em uma ligação cortada por falhas da telefonia na estrada.

Às primeiras informações, seguiu-se "um silêncio e uma angústia", diz o estudante Lucas Machado, de 23 anos. Pouco depois, já perto de desembarcar no Rio, veio a confirmação. "A mãe de um colega ligou perguntando onde ele estava. Quando entendemos o que aconteceu foi uma comoção só, o ônibus veio abaixo", relembra. "Fiquei aos prantos, perdi um amigo muito próximo e muitos outros conhecidos", diz Machado.

Ao saber da notícia, cogitaram voltar para Santa Maria, mas retornar significaria mais 1.700 quilômetros de estrada ou 25 horas de viagem sem descanso. Mesmo consternados, a programação foi mantida. "Graças a Deus estávamos no Rio", diz Daniel Carvalho, de 21 anos.

Entre os estudantes que viajaram, ele e outros 24 jovens afirmaram que estariam na boate naquela noite caso permanecessem em Santa Maria. "Muitos que não vieram estão mortos", diz a universitária Mônica Teló, de 21 anos. "Para mim, a viagem surgiu dois dias antes, alguns alunos não puderam vir, desistiram e a vaga sobrou. Eu estaria lá, na festa, mas vim. Um deles morreu", conta Mônica.

A viagem teve visitas no Complexo do Alemão, Corcovado e canteiros de obras da Olimpíada. Ontem, os estudantes participaram de um encontro com representantes da Autoridade Pública Olímpica (APO). A concentração, entretanto, era pouca. Alguns liam jornais, distraídos, outros buscavam pelo celular notícias dos amigos.

Assim como os jovens que organizaram a festa Agromerados na boate Kiss, o grupo de Educação Física planejava um evento no local, em abril, para arrecadar fundos para a formatura. Maiara Becker, de 23 anos, diz que o namorado, que era da turma de Agronomia perdeu 27 amigos. "Ele só não foi à boate pois eu vim para cá e ele não queria ir sozinho", diz, emocionada.

Volta para casa. O grupo deixa o Rio hoje e deve chegar a Santa Maria no sábado, dia 2. "A nossa família sabe que a gente está bem, mas não importa. Eles querem ver, abraçar", diz Machado. "A todo momento vemos a TV, as manchetes de jornal, não tem como fugir. Nós não estávamos lá, não sentimos na pele. Não sabemos o que vamos encontrar."

Para Amanda Strassburguer, de 18 anos, será preciso uma nova geração de estudantes para que o trauma da cidade seja superado. Ela perdeu um primo e quatro amigos. "Santa Maria era viva, as pessoas andavam pelos calçadões, se encontravam nas praças. Eram muitos jovens. Era muito divertido, tinha uma alegria grande no ar. Agora..."

Pela internet, amigos de Santa Maria contam que não conseguem dormir no escuro, temem ficar sós, "se sentem desprotegidos". Outros contam que a cidade está em silêncio profundo, cortado apenas pelas sirenes de ambulâncias. "Uma coisa é você ser solidário com quem perdeu os amigos, outra coisa é perder os amigos", diz Lucas Machado. "Não sei quando isso vai curar."

Mais conteúdo sobre:
Santa MariaKiss

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.