Turismo está há dez anos estagnado

Degradação e sensação de insegurança ajudam a explicar por que média anual de visitantes estrangeiros não passa de 5 milhões desde 1999

Rodrigo Brancatelli,

03 de outubro de 2010 | 00h11

Seu Carlos Andrade parece um tanto desanimado ao atender o telefone. Aos 52 anos, dono de uma loja de "presentes finos, camisetas com lindas estampas e charutos" na Rua das Laranjeiras, Pelourinho, coração histórico de Salvador, ele nem lembra se já fez alguma venda na manhã de sexta-feira. O repórter pergunta se ele está ocupado, se é melhor telefonar depois. "Ih, filho, faz tempo que eu não fico ocupado. As coisas aqui estão mais moles que fala de baiano. É até melhor ficar conversando com você, para passar o tempo. Para que time você torce?"

Ao redor da loja de Andrade, 170 estabelecimentos fecharam as portas nos últimos três anos por causa da degradação e consequente diminuição no número de turistas. É uma situação que pode ser vista em menor ou maior grau em várias outras cidades brasileiras e um exemplo de como o País explora mal seu potencial turístico. A falta de investimentos em segurança, preservação do patrimônio e até mesmo em ações básicas como coleta de lixo pode ser constatada nos dados de desembarques internacionais - o número de turistas estrangeiros que visita hoje o Brasil é o mesmo desde 1999, cerca de 5 milhões de pessoas.

Para efeito de comparação, a Argentina e o Chile tiveram no mesmo período um aumento de quase 10% no número de desembarques internacionais. Apesar do crescimento do turismo interno, o Brasil responde por apenas 25% do total de turistas estrangeiros que vêm para a América do Sul. A África do Sul, igualmente distante dos países emissores de turistas e com problemas maiores de segurança, recebe 10 milhões de visitantes por ano.

Insegurança. O governo culpa a valorização do real e a quebra da Varig pela estagnação do setor turístico brasileiro. Mas os problemas parecem até mais básicos. Prestes a receber uma enxurrada de turistas por força de eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, as cidades brasileiras não parecem prontas para um crescimento no número de desembarques internacionais.

Segundo pesquisas apresentadas pelo Ministério do Turismo, a sensação de insegurança é uma das principais razões - isso acontece tanto pela repercussão de crimes cometidos aqui quanto pela degradação dos centros históricos.

"Há ainda uma associação cada vez maior do Nordeste com a exploração sexual de menores", afirma o turismólogo Marcos Bitar. "São questões básicas a serem resolvidas", completa Thais Funcia, diretora da Escola de Turismo da Universidade Anhembi Morumbi. "Sem infraestrutura não é possível atrair turistas."

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