Tumulto na feira mais irregular de SP

Por duas horas, compradores vindos de todo o País foram impedidos de entrar no centro de comércio popular que funciona toda madrugada no Brás

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2010 | 00h00

Cerca de 800 camelôs invadiram a Feirinha da Madrugada, localizada no Brás, no centro da capital, na madrugada de ontem. Os ambulantes tentaram ocupar um espaço interno da feirinha depois que um loteamento de novas vagas - que já seria irregular - foi adiado pela terceira vez. Durante duas horas, consumidores que vêm de ônibus de todo o País foram impedidos de entrar no local. Não houve violência e ninguém foi detido.

A confusão expõe "a maior aglomeração de comércio irregular de São Paulo", como denunciam sindicato e associação que atuam no local. "Quase tudo lá dentro é irregular e ninguém quer regularizar. Por algum interesse", afirma Jomh Walis, presidente da Comissão Organizadora Trabalhadora Ambulante (Cotasp), cujos integrantes participaram da ocupação. "A feirinha é o maior centro de coisas ilegais. Não tem empresa representante, não há nenhum respaldo para nada. É um espaço público em que algumas pessoas recebem, há anos, dinheiro dos ambulantes", afirma Rivaldo Sant"Anna, que representa a união dos distribuidores de frutas.

Estima-se que a feira abrigue cerca de 10 mil ambulantes. Cada um paga por mês R$ 500 de taxa de condomínio e permissão de uso. O local também é um dos principais centros de compra popular da cidade. Já foi objeto de inúmeras denúncias de cobrança de propina e palco de operações policiais contra pirataria e contrabando - a última, no mês passado, resultou na apreensão de 400 toneladas de mercadorias ilegais.

Intervenção. No mês passado, o grupo de ambulantes que ocupou o local na madrugada já havia entrado na feira. Ficaram por dois dias e, com a promessa do sorteio de vagas, foram embora.

A pedido do Ministério Público Federal, a superintendência da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) assumiu a administração da feirinha no dia 25 - o terreno é da extinta Rede Ferroviária Federal S/A. A SPU suspendeu todos as cobrança até apurar os problemas.

Mesmo depois da intervenção, o administrador do local, Ailton Vicente de Oliveira, convocou uma reunião para o sorteio de novas vagas - agora na sede da SPU. O encontro já foi cancelado três vezes. "Hoje não temos recursos para saldar os serviços contratados", afirma Oliveira, que está na feira desde o início. Ele afirma que, nos primeiros anos, ficava com mais R$ 800 mil mensais a título de administração. Desde abril, recebe, segundo conta, R$ 60 mil.

O superintendente substituto do Patrimônio da União no Estado de São Paulo, Raphael Bischof dos Santos, afirma que o sorteio não foi autorizado. "A gente não autorizou sorteio de vagas. Marcamos reunião para entender a questão", afirma.

Raphael confirma ainda que nenhum documento legal autoriza Ailton a gerir o local. Na sexta-feira, o escritório dele foi lacrado pela SPU. / COLABOROU MÔNICA PESTANA

PARA LEMBRAR

Da 25 de Março para a Rua Oriente, no Brás

A Feirinha da Madrugada começou a funcionar há 10 anos na Rua 25 de Março, região central da cidade. Desde 2005, funciona em área da União na esquina da Rua Monsenhor Andrade com a Rua Oriente, no Brás.

O local fica aberto de segunda a sábado, das 3h às 10 horas, mas, no fim do ano, o fechamento é esticado para as 16 horas.

Em 2005, o MP investigou a venda de pontos por até R$ 20 mil e cobrança de propinas. Em 2009, suposta milícia formada até por policiais para expulsar camelôs antigos e dar as vagas a chineses também foi investigada. A Justiça Federal ainda tem processo para apurar contrabando no local.

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