Tumulto e tensão em 2 favelas pacificadas

Militares e moradores se enfrentaram no Complexo do Alemão e 10 se feriram; na Cidade de Deus, UPP é atacada

Alfredo Junqueira e Tiago Rogero / RIO, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2011 | 00h00

Duas comunidades pacificadas no Rio foram cenário de tumultos e agressões na noite de domingo e no início da madrugada de ontem. Dez moradores ficaram feridos em conflito com militares da Força de Pacificação do Exército no Morro da Alvorada, no Complexo do Alemão, zona norte da cidade.

Na Cidade de Deus, zona oeste, jovens que saíam de um baile funk atiraram pedras e garrafas contra uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Um policial sofreu um corte na testa.

Os episódios revelam, de acordo com especialistas ouvidos pelo Estado, a urgência de revisão na metodologia e processos de ocupação nas favelas.

O caso mais grave aconteceu no Complexo do Alemão. Frequentadores de um bar assistiam a um jogo de futebol, quando dez militares, segundo moradores, pediram que baixassem o som da TV. De acordo com o Exército, um homem hostilizou os militares e foi preso. Os protestos provocados pela prisão culminaram em briga generalizada. A estudante Elaine Moraes, de 17 anos, ficou com uma bala de borracha alojada na boca.

Vídeo de um morador divulgado na internet mostra que um militar borrifou spray de pimenta contra pessoas em um bar, que só então revidaram. A partir daí, começaram os tiros de balas de borracha por parte dos militares. O Ministério Público Federal (MPF) do Rio instaurou inquérito civil para apurar o caso.

Na Cidade de Deus, dois suspeitos de participar do ataque à UPP foram levados à delegacia.

No final da tarde de ontem, moradores do Complexo do Alemão fizeram um protesto contra a violência na comunidade. Foram estendidas faixas contra a ação do Exército.

Falhas. Para a professora Edna dell Pomo de Araújo, coordenadora do Núcleo de Estudo em Criminologia e Direitos Humanos da Universidade Federal Fluminense, os episódios mostram que é preciso rever as formas de ocupação e que o processo precisa ser avaliado por especialistas e pesquisadores neutros. "O modelo de ocupação, que já foi considerado solução milagrosa, não é ainda o mais correto."

O antropólogo e ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) Paulo Storani aponta a falta de lideranças comunitárias como empecilho para criar canais de comunicação entre moradores e forças de ocupação.

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