Trovadores: 20 anos de boas histórias

De balde d'água na cabeça no início da carreira a uma infraestrutura com 50 pessoas, grupo hoje reconhecido nas ruas, como atestou passeio na Avenida Paulista, comemora trajetória com dois shows

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Tietagem. Os quatro integrantes da formação original dos Trovadores Urbanos, todos amigos de Avaré, na Avenida Paulista

"Trovadores, eu gosto muito de vocês. Eu não gosto é do meu marido!", gritou a homenageada, atirando ternos, sapatos e discos pela janela, enquanto os seresteiros tocavam Volta, de Lupicínio Rodrigues. O marido ainda saiu de trás de um Fusca, para implorar pessoalmente a reconciliação, mas não teve jeito.

Em 20 anos, completados hoje, o grupo Trovadores Urbanos acumulou um repertório de casos com clientes e homenageados muitas vezes mais divertidos que as próprias apresentações. Já levaram balde d"água na cabeça, foram escorraçados, ridicularizados. Mas o amor venceu. Em sua primeira apresentação, em 1990, eles fizeram um delegado de polícia chorar de emoção.

O aniversário do grupo vai ser comemorado com dois espetáculos, hoje e amanhã, no Memorial da América Latina, e com o lançamento do CD Amor Até o Fim. Eles esperam receber 800 pessoas em cada dia.

Maída Novaes, coordenadora e espécie de porta-voz do grupo, não para de contar. "Um dia, a gente foi fazer uma serenata para um cara, e ele estava na sala, assistindo futebol na TV. Nem tomou conhecimento. Só perguntou para a mulher: "Quanto custou isso?""

Desde o começo, quando os quatro amigos de Avaré se juntaram por iniciativa de Maída, o grupo incrementou seu repertório de canções, aumentou substancialmente o cardápio de opções (de duetos a telegramas do amor) e multiplicou o número de apresentações. Agora, são 50 músicos, fazendo em média 400 apresentações por mês, a maioria aos sábados.

Se o início era só um quarteto mambembe, despretensioso, hoje os Trovadores Urbanos se autodenominam um "projeto". O grupo procriou também. Alguns elementos da segunda geração integram os Trovadores Mirins.

Na Paulista. A reportagem acompanhou os quatro seresteiros originais em uma volta pela Avenida Paulista, anteontem, em pleno movimento das 15h. Não bastasse a cantoria, eles ainda envergavam trajes de caipiras renovados, vestidos de festa, ternos e chapéus. Batata: todo mundo olhou, todo mundo perguntou do que se trata, todo mundo quis sair na foto.

Entre o Conjunto Nacional e o Parque Trianon, os trovadores juntaram muitos agregados. Perto do parque, a secretária aposentada Zuleide Braga, de 63 anos, se sentou para observá-los, acompanhando as músicas só com os lábios. Viúva, três filhos, ela disse que adoraria receber uma serenata. "Quem não gostaria?" Uma porção de gente. Maída e Valéria Caram, outra integrante, lembram de um homem que berrava "Vão emboraaaa!!!!", enquanto a mulher dele assinava, trêmula, o cheque para pagá-los.

Zuleide diz que, além da falta do namorado, um outro obstáculo torna uma serenata em sua homenagem praticamente inviável. "Moro no 11.º andar", diz ela, que vai prestar vestibular para Direito e estava a caminho do cursinho.

O estudante de Biomedicina Bruno Oliva, de 25 anos, que mostrava a Avenida Paulista a dois amigos de Rondônia, pediu para sair na foto com os trovadores. Um dos amigos, Alexandre Veloso, de 22, disse gostar de New Age e música Celta ("estilo Enia"). O outro, Elton Waldraff, de 21 anos, prefere afro. "Mas nunca tínhamos visto algo assim (serenata). É engraçado", afirmam eles.

Acostumados a reações extremadas, os Trovadores continuam a caminhar impávidos pela Paulista. Eles merecem o sucesso. Afinal, quem mais, como Maída (ela continua falando), contaria descontraidamente que chegou a ler cinco páginas de pedido de perdão, enquanto os amigos tocavam uma serenata?

Dia das Mães

As preferidas são Paz do Meu Amor (Luiz Vieira), Rosa (Pixinguinha) e Como é Grande o Meu Amor por Você (Roberto Carlos)

400

Serenatas são feitas por mês pelos Trovadores Urbanos. O grupo já teve filiais no Rio, em Santos e em Campinas

R$ 300

É o valor mínimo cobrado pelo grupo por uma serenata. Ela é realizada por um dueto

As músicas imbatíveis são Volta (Lupicínio Rodrigues), Sozinho (Peninha) e Por Causa de Você (Dolores Duran e Tom Jobim)

Namorada (Carlinhos Lyra e Vinícius de Morais), Você (Tim Maia) e Eu Sei Que Vou Te Amar (Vinícius de Moraes)

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