Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

''Troco apartamento pelo metrô'', diz síndico

Responsável pela administração do prédio que teria de ser demolido para dar lugar à Estação Angélica diz que não prejudicaria o ''desenvolvimento''

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2011 | 00h00

O síndico do prédio que seria desapropriado para a construção da Estação Angélica do Metrô, o argentino Carlos de Brelaz, de 78 anos, diz que aceitaria perder seu imóvel para que o serviço fosse construído. "Se tivesse de me prejudicar para o desenvolvimento e o benefício do bairro, da cidade, eu me prejudicaria", afirma.

O Edifício Paulistania, onde mora, estava na mira do Metrô e seria derrubado. Isso se o governo do Estado não tivesse desistido de construir ali a estação da Linha 6-Laranja. O novo local ainda está sendo estudado.

Brelaz é aposentado, viúvo e vive há 40 anos em Higienópolis. Mora sozinho em um apartamento com vista para um parque cujo nome lhe traz lembranças, o Buenos Aires. É a cidade onde ele já ia de metrô para a escola quando criança. A capital argentina teve sua primeira linha construída na década de 1910 - foi o primeira da América Latina. Em São Paulo, o serviço chegou só na década de 1970.

"Sou super favorável ao Metrô. As pessoas chegam mais rápido a seus destinos. Podem vir para Higienópolis lendo jornal, em vez de terem de ficar trocando de ônibus várias vezes", diz, com sotaque portenho.

Tão favorável que estaria disposto a abrir mão de seu apartamento de 121 metros quadrados de área e três quartos, avaliado em cerca de R$ 650 mil pela Gama Filho Consultoria Imobiliária. Mas admite: "Seria um grande transtorno ter de se mudar de um local tão "agradável"".

Um dos passatempos preferidos do aposentado - que exercia profissão de consultor de produtividade de vendas - é passear com a cachorra no Parque Buenos Aires. Tem carro, mas usa pouco - gosta de pegar o metrô na Estação Santa Cecília.

Carlos diz lamentar a polêmica que se levantou em relação à construção da estação em Higienópolis, onde os moradores fizeram um abaixo-assinado (não assinado por ele), solicitando ao Metrô que a parada não fosse construída ali, na esquina da Avenida Angélica com a Rua Sergipe. Um supermercado e uma loja de vinhos também seriam desapropriados.

A alegação dos opositores é que o serviço ficaria próximo à estação que será ao lado da Universidade Mackenzie - seriam 610 metros de distância, quando o padrão internacional é de pelo menos um quilômetro entre as estações. Nas ruas, moradores também apontam que a estação traria problemas, como camelôs, mendigos e furtos.

Mas o imigrante argentino chama a atenção para aspectos menos comentados. "Muita gente aqui está acostumada a ter um supermercado por perto. Eu, por exemplo, estou sempre com a geladeira vazia e gosto da facilidade."

Ele opina também que o fato de os moradores terem carro e não usarem metrô não torna para eles o serviço essencial. Mas lembra que certamente seus funcionários e estudantes do bairro desejam - e muito - o novo serviço.

Nada de encrenca. Carlos não toca no tema nas reuniões de condomínio. "Tudo que não quero é encrenca." Espera que a "pequena rede" do Metrô de São Paulo aumente e a qualidade não caia, como ocorreu na sua Buenos Aires.

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