Mariana Loureiro/Arquivo pessoal
Mariana Loureiro/Arquivo pessoal

Troca de cartas volta a ganhar adeptos e transforma-se em hobby na era digital

Sites, redes sociais e aplicativos ajudam a interligar interessados em se corresponder; adeptos descrevem prática como forma de se desconectar

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - O primeiro passo é uma saudação, seguida de apresentação: quantos anos tem, onde mora, o que faz da vida, o que gosta de ler, de assistir, fazer. Depois, é o momento das perguntas para descobrir interesses em comum e, também, de acrescentar alguns mimos, como adesivos, recortes e afins. Esse passo a passo faz parte de um tutorial que, embora publicado no YouTube, tem objetivo mais analógico: ensinar a escrever cartas.

A troca de correspondência até deixou de ser um meio prático de comunicação, mas continua a ter milhares de adeptos no Brasil, tanto entre saudosos quanto entre aqueles que a adotaram já em plena era digital. Mais que isso: a tecnologia tem ajudado a atrair interessados por meio de blogs, sites, hashtags, grupos em redes sociais e até aplicativos.

“É uma forma de se desligar do ambiente veloz, de parar, sentar e escrever para produzir uma coisa à mão. Precisa sair de casa, ir nos Correios, postar a carta, esperar uma resposta. Sai do contexto de hoje em dia, em que tudo é uma correria”, descreve Carolina Santiago, de 23 anos, mestranda em Literatura e moradora de Salvador.

Carolina começou a trocar cartas em 2017 e, hoje, mantém contato com cerca de sete “penpals” (amigos por correspondência, em inglês). “Não sabia que era uma comunidade tão forte nos dias atuais. Quando comecei, queria conhecer pessoas diferentes das que estava acostumada, de gerações diferentes, conhecer novas formas de pensar.”

A jovem compartilha parte dessas experiências no canal Carolinaismo, no YouTube, com vídeos de até 2 mil visualizações. Fora do País, publicações semelhantes chegam a passar as 900 mil visualizações. Elas são focadas especialmente em técnicas para escrever letras mais caprichadas e decorar cartas e envelopes com recortes de jornais e revistas, adesivos e itens afins. 

Tudo isso ganha força com o crescimento do interesse por lettering, uma espécie de caligrafia que não precisa seguir regras ortográficas (como misturar letras cursiva e de forma, por exemplo), em que a escrita vira quase um desenho feito à mão. Outras tendências do mesmo nicho são o bullet journal e o scrapbooking, espécies de agendas e álbuns feitos à mão. 

 

 

Hashtags e grupos em redes sociais ajudam a conectar interessados

Além de dicas, os interessados têm na internet a principal plataforma para encontrar pessoas para se corresponder, principalmente por meio de hashtags no Instagram, grupos no Facebook e sites especializados. Esse é o caso, por exemplo, do Envelope de Papel, que mantém site, perfil em redes sociais e um grupo de WhatsApp. O objetivo principal é apresentar breves descrições sobre pessoas que querem se corresponder, com interesses, hobbies, cidade natal e idade, dentre outras informações básicas.

“Em 2016, comecei a pesquisar na internet sobre cartas e aí encontrei um site internacional, que estava meio desatualizado. Não sabia se os endereços eram os mesmos. Comecei um grupo de cartas, passei a receber algumas e a me identificar com esse mundo”, conta a idealizadora do Envelope de Papel, a publicitária mineira Mariana Loureiro, de 23 anos.

Hoje, a iniciativa reúne perfis de 585 pessoas de todos os Estados do País e alguns brasileiros que moram no exterior, com uma média de dez novas inscrições por semana, “sem divulgação”, como ressalta Mariana. “A faixa etária é bem variada, tem jovens de 15, 20 anos, tem pessoas com mais de 50 anos muito ativas e um grupo infantil, de 7 a 14 anos”, comenta. 

A publicitária conta que se interessou por cartas e foi procurar mais informações online após uma conversa com o pai, que se correspondia com estrangeiros nos anos 1980. “A internet é essencial (para a popularização das cartas). A maioria das pessoas vai, em primeiro lugar, na internet para procurar.”

A assistente técnica Ana Lúcia Abreu, de 51 anos, é uma das usuárias cadastradas do Envelope de Papel. “Antes, mandava cartas para pessoas que conhecia, que trabalhavam comigo. No Natal, mandava cartão para irmãos, tios, amigos mais chegados. Gosto da sensação de que alguém lembrou de você. A sensação é muito boa, de receber uma carta.”

Ana Lúcia costuma escrever no fim de semana, especialmente nos fins de tarde e início de noite de domingo. “Deixo a coisa fluir. O melhor presente que a gente pode dar a alguém é o tempo, porque ele nunca mais volta.”

Já a professora de Língua Portuguesa Lygea de Souza Ramos, de 36 anos, costumava se corresponder quando era adolescente e retomou o hábito há três anos. “Sempre foi uma coisa que me agradou muito, é uma forma de demonstrar carinho pela pessoa. Telefone, e-mail, é tudo muito imediatista, com mensagens curtas, não tem aquele tempo de elaboração como a carta.”

“Pensar como fazer até a decoração da carta abre um universo muito diferente. Hoje tem um universo de papelarias enorme, uma infinidade de coisas que posso usar para decorar, trocar”, conta ela, que se corresponde com cerca de dez pessoas. “Gosto de conhecer outras culturas, as pessoas se mostram mais por meiodas cartas, o que gostam, o que fazem.”

App simula experiência de troca de cartas

O hábito também ganhou impulso por intermédio do aplicativo Slowly, que simula a troca de cartas de forma virtual e tem cerca de 2 milhões de usuários mundialmente. O app propõe matches (combinações) com pessoas de interesses semelhantes (fotos de perfil não são permitidas), com as quais é possível trocar cartas virtuais – que podem levar até dias para chegar ao destinatário, a depender da distância geográfica. 

“Em um app normal, geralmente a pessoa fala ‘Oi, tudo bem’, é difícil a coisa pegar. Fiz bons amigos assim, mas é uma coisa rara, precisa de muitas conservas para ter uma interessante. O Slowly é mais fácil, tem isso de não estar tentando conversar com um monte de gente ao mesmo tempo, de escrever como se fosse carta, com um monte de informação”, comenta o mineiro Marcelo Fonseca, de 32 anos, professor de idiomas.

De férias fora do País, Marcelo pretende voltar a se corresponder em 2020. Uma das principais motivações é praticar idiomas com nativos. “Tinha de colocar no meu planejamento. Chego em casa às 20, 21 horas. Às 23 horas, sentava para escrever. O app passou a ser parte da minha vida, é uma coisa que você não para qualquer instante e responde. Tem mensagens que levei 1h30 ou mais escrevendo, tem de ser pensado.”

Para especialistas, novas gerações reescrevem o sentido da troca de cartas

Com a chegada de meios de comunicação mais eficientes, a troca de correspondência ganhou novos significados ao longo das décadas. Escrever cartas se tornou um hobby, um trabalho manual ou até uma forma de experimentação social - especialmente entre as gerações que adotam a prática pela primeira vez.

“Sempre que se traz para o presente uma coisa típica de determinada época é porque, no presente, isso está fazendo sentido”, aponta Lilian Torres, professora de Antropologia da Faap. “Não é uma sobrevivência do passado pura e simplesmente. É algo que informa, comunica um estilo de vida, um valor, crenças, e faz sentido neste momento para essas pessoas. Não é meramente sobrevivência do passado, tem uma função no agora.”

A especialista comenta que a carta tem algumas características antagônicas aos meios de comunicação tecnológicos (como telefone, e-mail e afins), por não ser instantânea e precisar ser postada. “Demanda mais tempo, relação com muitos intermediários. A carta tem essa relação muito física, fazendo escolhas de papel, de caneta, de envelope, de adesivos, de cores.”

Outro aspecto ressaltado pela professora é que a escrita, embora tenha destinatário, também é um processo pessoal. “Envolve um contato mais íntimo com o seu gosto, interesse, é um tempo que a pessoa vai mergulhar em si, naquilo que vai compor a mensagem, que é um dado de intimidade, mais personalizado, individualizado.”

“A carta se contrapõe à instantaneidade do online, que tem respostas curtas. Se demoram a responder, causa uma frustração”, comenta ela. “Na carta, com os trabalhos manuais, a pessoa tem ali um sinal de personalização, se distingue naquele trabalho, é uma forma de distinção da pessoa.”

Professor de Sociologia da Universidade Mackenzie, Rogério Baptistini comenta também sobre diferenças entre os meios de comunicação. “A comunicação instantânea é mais fugaz, a leitura menos ansiosa e detalhada”, compara. “Se escreve sobre assuntos banais do cotidiano, a reflexão se perde no decorrer do dia.”

“A comunicação hoje por WhatsApp e aplicativos instantâneos aparentemente nos aproxima, mas mais parece uma ordem comercial de um departamento para outro e fica esquecida no turbilhão de mensagens que preenchem o dia a dia”, completa o professor.

Para ele, o interesse de gerações mais jovens por cartas segue uma tendência de parte dessa população, que está “virando as costas para o uso indiscriminado das redes sociais, com a busca de normais mais verdadeiras de sociabilidade”. “É um fenômeno de busca de interação de uma forma mais autêntica.”

Apps, canais e sites para começar a se corresponder por cartas:

Canal de YouTube:  Carolinaismo

Site com perfis e endereços: O Envelope de Papel e Trocando Cartas

Aplicativo Slowly: disponível no Google Play e no iStore

Tudo o que sabemos sobre:
escritaliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.