Triplica número de vítimas de abuso atendidas em São Paulo

Desde outubro, média de novos casos passou de dez por mês para um por dia

David Moisés,

18 Maio 2009 | 09h06

Triplicou o número de crianças vítimas de abuso sexual levadas a atendimento em unidades de apoio comunitário nas zonas sul e leste de São Paulo. De outubro para cá, a média de novos casos passou de dez por mês para um por dia, informa a pedagoga Ana Cristina Silva, coordenadora da Rede Criança de Combate à Violência Doméstica, organização que atua há dez anos nas duas regiões, em parceria com a Prefeitura e o governo federal.

 

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Chama a atenção também o aumento de casos envolvendo crianças mais novas. "Costumamos atender a vítimas na faixa dos 7 aos 14 anos, mas têm aparecido muitas vítimas de 2 ou 3 anos", observa Maria José de Morais, que lidera a unidade de Aricanduva. Outra novidade desconcertante: pais biológicos são maioria entre agressores e, agora, avós também começam a aparecer nesse grupo.

O quadro reflete um número maior de pessoas dispostas a denunciar abusos e procurar ajuda, não necessariamente um aumento no número de vítimas. Quanto a isso, não há indicação estatística. "O que temos hoje é a estimativa de que, no mundo, a cada três minutos uma criança sofre abuso sexual", diz Ana Cristina.

O aumento de registros se deve, segundo a coordenadora, ao fato de haver hoje mais informação a respeito do abuso na mídia e em escolas e unidades de saúde. "Costumávamos receber vítimas e agressores encaminhados pelas varas de infância, varas criminais e conselhos tutelares. Agora eles também vêm de hospitais e unidades básicas de saúde, além da própria comunidade."

Há 457 casos de abuso sendo tratados pelos 46 assistentes sociais, psicólogos e pedagogos nas três unidades da Rede Criança - duas na zona leste, uma na sul. Meninas e meninos, praticamente em igual proporção, recebem atendimento e participam dos diversos grupos de apoio e atividades terapêuticas.

O trabalho envolve também um total de 380 famílias. "O abuso sexual não afeta só a vítima direta, mas também seus irmãos. E o grupo familiar se desestrutura", diz Giovana Odinna, da unidade da zona sul. Esses números foram atualizados na última triagem quinzenal da Rede Criança.

O estupro é o tipo mais numeroso entre os casos atendidos, tendo homens e mulheres como protagonistas. Mas há entre as crianças muitas que foram seduzidas ou forçadas a satisfazer adultos por meio de masturbação. Em todos os casos houve, pelo menos, atos libidinosos. "Não há dúvida da intenção maliciosa do adulto, porque isso aparece no estrago psicológico que a criança apresenta", conta Maria José.

Vítimas de atos libidinosos, ou "bolinação", relatam a manipulação dos genitais, beijos e mordidas, por exemplo. "Abuso não é só a violação", explica Maria José. Tudo o que caracterize uso da criança para satisfação sexual do adulto é considerado abuso e, portanto, crime. E toda forma de sedução e uso de crianças para prazer sexual adulto é devastador à infância.

Essa devastação tem sido perpetrada por muitos pais biológicos e, surpreendentemente, por avós, segundo registros da Rede Criança. Há casos em que o casal comete abuso. "Há mães que abusam, pais que abusam, parceiros que ocultam o abuso cometido pelo outro e casais em que ambos abusam", diz Ana Cristina.

Avós abusadores são mulheres e homens que ficam em casa durante o dia e se aproveitam da condição de cuidadores dos netos. "São pessoas que perderam parceiros, ou não têm prazer com eles, e se envolvem com os netos nos momentos em que dão banho, trocam de roupa."

Entre os abusadores, de todas as idades, há muitos que agem pela conveniência da oportunidade, há os que se consideram no direito de fazer uso dos filhos para seu prazer e há os pedófilos, que sentem desejo sexual por crianças.

Nem sempre, porém, é possível reunir provas para prender um abusador. "É difícil comprovar a prática de bolinação", diz Maria José. Uns poucos agressores confessam. Ainda assim, a Rede Criança atende hoje a 57 abusadores e suspeitos, muitos forçados por ordem judicial.

Preocupação

As equipes da Rede Criança ainda investigam se há um crescimento na ocorrência do abuso, mas só o aumento do número de encaminhamentos é suficiente para trazer preocupação. Por enquanto, a estrutura dá conta, mas Ana Cristina já vê surgir a necessidade de reforço. "Não queremos que vítimas de abuso sofram ainda mais em listas de espera."

A tendência é de um aumento na procura por atendimento, até mesmo porque a Rede Criança está ampliando o trabalho de orientação em escolas e na rede pública de saúde, para que saibam identificar e encaminhar vítimas. "Professores e médicos precisam saber que muitas vezes por trás de um problema disciplinar ou de saúde há caso de abuso sexual."

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