FELIPE RAU/ESTADÃO - 27/02/2022
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Trilhas acessíveis ganham mais espaço em áreas verdes de São Paulo

Cadeira adaptada criada por casal de montanhistas está à disposição em 15 unidades de conservação do Estado; projetos públicos e privados incentivam a prática

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2022 | 05h00

Pessoas com mobilidade reduzida já podem contar com um novo equipamento para visitar áreas verdes e percorrer trilhas em alguns parques paulistas. A cadeira adaptada Julietti, concebida por Guilherme Simões Cordeiro para ajudar sua mulher, Juliana Tozzi, a passar por trilhas de difícil acesso, agora está à disposição em pelo menos 15 Unidades de Conservação do Estado de São Paulo. A iniciativa se junta a outros projetos públicos e privados que têm o objetivo de aproximar a população das áreas verdes.

“É fundamental que as pessoas em geral tenham contato com áreas verdes naturais, mas principalmente a gente que tem alguma deficiência”, explica Juliana. “No meu caso, isso ajudou bastante na minha reabilitação. Imagino que também possa auxiliar outras pessoas.”

Ela e o marido sempre praticaram o montanhismo e, juntos, tiveram a oportunidade de viajar por vários lugares até que Juliana recebeu o diagnóstico de um câncer de mama. Foi um susto, mas a doença foi superada. Quando Juliana engravidou, no entanto, surgiu um novo problema de saúde: degeneração cerebelar paraneoplásica, uma síndrome neurológica extremamente rara. O filho deles, Benjamin, nasceu. E ela foi perdendo a mobilidade.

Foi aí que Guilherme teve a ideia da cadeira, que batizou de Julietti. “Ela foi feita pelo Guilherme para mim. Como a gente viu que deu certo e estávamos constantemente na natureza, mas nunca tínhamos visto ninguém com mobilidade reduzida nesses lugares, a gente decidiu espalhar essa ideia pela nossa ONG”, conta Juliana.

Até na subida

Os dois criaram, então, o Instituto Montanha para Todos e a Julietti Tecnologia Assistiva. O equipamento patenteado consiste em uma cadeira que pode ser puxada e/ou empurrada. Assim, áreas ao ar livre e trilhas se tornam acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida. A autonomia não é total, no entanto, pois é necessário que alguém conduza o equipamento. De qualquer forma, possibilita acesso a muitos lugares, mesmo com aclives e declives, em que uma cadeira de rodas comum não chegaria.

Uma cadeira Julietti custa R$ 6.589,00 e a intenção principal do casal Guilherme e Juliana foi convencer o poder público da importância do equipamento. Isso porque eles sabem que seria muito complicado para o usuário comum adquirir a cadeira, pelo custo alto e por não ser um objeto de uso cotidiano para um único usuário.

“Tudo para uma pessoa com mobilidade reduzida é caro. E essa cadeira não é algo que se vai usar todo dia. Então, com a empresa a gente tem vendido muito para o setor público. Vendemos ano passado mais de mil cadeiras e ficamos felizes com isso”, conta Juliana. “É uma forma também de as prefeituras deixarem disponíveis nos parques e as pessoas poderem utilizar sem custo.”

No Estado

O governo de São Paulo, por exemplo, já adquiriu cadeiras por meio do Programa Trilha Acessível. Os equipamentos foram distribuídos para parques estaduais e para municípios com apelo turístico, como Jaraguá, Serra do Mar, Ilha do Cardoso, Nascentes do Paranapanema, Caverna do Diabo, Prelado, Ilhabela, Campina do Encantado, Furnas do Bom Jesus, Itinguçu, Rio Turvo, Vassununga, Carlos Botelho, Morro do Diabo e Ilha Anchieta, entre outros.

“A partir do momento em que tornamos acessíveis locais públicos para pessoas com deficiência, nós estamos dando espaço e oportunidade para esse público”, afirma a secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Célia Leão. “A pessoa com deficiência é sujeito de direito com independência, liberdade e mobilidade.” 

Na opinião da secretária, a grande vantagem desses equipamentos é oferecer para a pessoa com deficiência a mesma experiência que outros visitantes teriam nas trilhas, uma vez que não é preciso fazer adaptações nos locais. “Propiciar um espaço verde acessível é mais do que turismo e lazer, é inclusão.”

O programa de trilhas vem provocando curiosidade e interesse, principalmente das próprias pessoas com deficiência, que pouco se imaginavam nesse tipo de atividade, de acordo com Célia. “Existem entidades e ONGs que já trabalham com esses equipamentos, mas torná-los acessíveis a todos que quiserem e puderem usufruir faz a inclusão acontecer na prática.”

Recursos aproximam visitantes do convívio com a natureza

Além do Programa Trilha Acessível, São Paulo conta com outros projetos públicos e privados que procuram inserir a população nas áreas verdes. Na Reserva Natural Sesc Bertioga foi inaugurada a Trilha do Sentir, que pretende levar acessibilidade também para cegos. É um percurso de nível leve e, segundo o Sesc, a visita mediada é guiada por agentes de educação ambiental da unidade.

Nela as pessoas percorrem um deque suspenso de madeira, com corrimões de diferentes alturas e guia de balizamento. Também há maquetes e fotos táteis, e espaços para cadeira de rodas junto a bancos ao longo da trilha. Isso permite que as pessoas conheçam a floresta em variadas alturas e perspectivas em um passeio de 90 minutos.

Outra iniciativa é o Parque Ecológico Imigrantes, uma instituição privada que tem foco em experiências ambientais educacionais e inclusivas. “Plataformas, rampas de acesso, bondinho em plano inclinado, corrimões e recursos eletrônicos de áudio, assim como a Trilha Sensorial, permitem que pessoas com necessidades especiais desfrutem da natureza.”

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