TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Trilha ecológica quer reaproximar margens do Rio Pinheiros dos paulistanos

Novo passeio percorre 3,5 quilômetros no distrito de Santo Amaro; evento ocorre em dois sábados por mês, de forma gratuita

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2022 | 05h00

Em alguns momentos, a vegetação do entorno até abafa o barulho dos automóveis, enquanto os guias apontam para aves e plantas diversas e versam sobre a trajetória daquele local. O reflexo de edifícios, pontes e trens nas águas lembra a todos, contudo, que estão em uma “trilha”, mas também em uma das áreas mais urbanizadas da cidade de São Paulo: o entorno da Marginal do Rio Pinheiros. O passeio é uma das iniciativas criadas neste ano para reaproximar a população das margens do Rio Pinheiros, transformadas parcialmente em um parque linear, em fase de implantação.

A trilha é realizada em dois sábados por mês, das 15h30 às 17h30, com inscrições gratuitas pela internet e participação de até 30 pessoas. De cerca de 3,5 quilômetros, começa na Nossa Praça (Avenida Professor Alceu Maynard Araújo, 651 – distrito Santo Amaro) – espaço recuperado por moradores do entorno, com horta e  parquinho –, atravessa a Ponte Laguna e segue pelo Parque Bruno Covas – Novo Rio Pinheiros até a Estação Santo Amaro, do Metrô. 

Como os guias avisam: por ser um local aberto, cada passeio é único. Em uma das ocasiões em que a equipe do Estadão esteve no local, até mesmo dois bovinos foram vistos pastando nas margens do rio. Na outra, dois quero-queros adultos faziam barulho para afastar qualquer aproximação humana dos três filhotes que davam os primeiros passos. Outras tantas espécies de aves são vistas na vegetação, no chão e nas águas.

Nas proximidades do espaço Pomar Urbano, onde há um viveiro, uma placa sinaliza: “Atenção: área de lazer de capivaras”. Nem sempre, contudo, os roedores se fazem presentes embora estejam entre as expectativas dos que participam do passeio. Ali também há um deque mais próximo ainda das margens do rio.

Da vegetação, há flores, plantas e árvores variadas, parte cultivada desde a retificação do rio, parte de presença mais recente. Os guias mostram, por exemplo, a pouco conhecida fruta monstera, a qual pode até ser provada em determinadas situações e maturidade. 

Em processo de despoluição, o rio tinha lixo e mau cheiro menos perceptível na maioria do trajeto, com exceção principalmente no trecho do entorno da Ponte Edson de Godoy Bueno. Mas em grau mais reduzido do que o habitual de anos atrás. 

Objetivo

O passeio é uma das iniciativas propostas pelo Lab Rio Pinheiros, formado pelo escritório de urbanistas Metrópole 1:1 e a organização SampaPé, em parceria com a concessionária responsável pelo parque, a Farah Service. “É uma iniciativa também de aproximação com aquele espaço e com uma consciência ambiente, de entendimento da vocação do rio como parque”, comenta Leticia Sabino, fundadora e diretora da SampaPé. 

O laboratório também realiza estudos junto a moradores do entorno e de identificação de intervenções que possam potencializar os usos do parque. “As pessoas nem sabiam como chegar, o que tem ali”, comenta. Em um dos dias que o Estadão esteve no local, no final da manhã de uma quinta-feira, a circulação era restrita a ciclistas, sem a presença de pedestres, passeantes com cães e outros públicos.

Leticia descreve como que o parque está começando a "destravar" um espaço antes pouco ou nada acessível para a população. “As pessoas olham para o rio como algo marginal à Marginal (do Rio Pinheiros), a uma via expressa da cidade, como se não tivesse atratividade nenhuma ali. A Marginal é vista como uma grande via de passagem”, comenta. “Precisa construir essa ideia (de parque).”

Com um uso mais frequente das margens do rio por ciclistas, o laboratório vê como um desafio atrair usuários que busquem “desacelerar” e com perfis etárias variados. “É preciso olhar para o espaço também na velocidade do caminhar”, comenta. Segundo ela, a criação de outros roteiros está em estudo, com temáticas diferentes, ao mesmo tempo que a adesão dos usuários de bicicletas é vista como sinal de que a população está disposta a frequentar o espaço.

O roteiro do atual passeio foi elaborado pelo Instituto Trilhas, reunindo informações e conceitos de geografia, história, química, física e biologia, “de um jeito mais leve”. Educadora e gerente de projetos na organização, a gestora ambiental Michele Toledo comenta que o pôr-do-sol também é um atrativo.

“A gente diz que os animais a gente não garante, mas as árvores sim. E comparamos a história dessas árvores com a da cidade, como com o pau-brasil e a palmeira jerivá, muito associada à retificação do rio, por exemplo”, comenta. A presença de espécies invasoras, a retificação do rio e o trabalho de despoluição também estão entre os temas abordados. 

Ao final, um questionário com sugestões de melhorias é feito. Por enquanto, não há acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, sendo a maior parte do trajeto em chão batido. No trajeto, também é possível perceber que parte da estrutura do parque ainda está em construção e implantação. “(Passear margem do rio) Era impensável há alguns anos atrás”, compara. 

A educadora conta que o passeio tem atraído frequentadores variados, de ciclistas do entorno a pessoas que nunca foram ao local. “Muitas não sabiam que dava para caminhar por ali. Tem gente que volta”, diz. “Todo passeio é um pouquinho diferente, aparece outro bicho, o sol muda a dinâmica, sai flor, frutas. A gente fala que pode voltar porque sempre tem novidade.”

Moradora de Carapicuíba, na Grande São Paulo, a professora Angela Maria de Camargo Gontscharow, de 55 anos, participou da última edição da trilha. Até então, só havia passado pela região de trem. “O rio parecia mais limpo e não sentimos um cheiro desagradável. No final da trilha tem um lindo pé de pimenta rosa”, descreve.

Já o advogado Val Garcia, de 47 anos, relata que somente havia passado pela região de carro ou metrô em 24 anos morando em São Paulo. “Pude ver que o rio não está tão sujo quanto imaginei, apesar de ainda precisar de cuidados, mas não era como tinha imaginado. Eu e minha esposa achávamos que o rio estaria mais mal conservado”, comenta. “O que mais me chamou a atenção foi poder ver que existe um parque, com uma boa estrutura ainda em construção, que pode ser muito bem aproveitado pelos moradores da região.”

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