Alex Silva
Alex Silva

Tributo familiar no desfile dos 85 anos

Batalhão mirim e soldadinhos da Polícia Militar fazem homenagem ao movimento MMDC

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

Um batalhão mirim, com 45 crianças e adolescentes da Sociedade MMDC, de veteranos de 1932, mais um contingente de mais 60 a 70 soldadinhos da Polícia Militar participarão hoje do Desfile de 9 de Julho, no Parque do Ibirapuera, na comemoração do aniversário de 85 anos da Revolução Constitucionalista. MMDC é a sigla formada pelos nomes dos quatro jovens – Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo – mortos em 23 de maio, em um tiroteio no centro da cidade. 

“Nosso exército desfilará com fardas iguais às usadas pelos combatentes, para lembrar a história ainda recente da revolta de São Paulo contra a ditadura de Getúlio Vargas, pois compete a nós, a geração atual, manter a memória do que ocorreu e não deixar que se percam os valores pelos quais os paulistas lutaram”, disse a advogada Sílvia Regina Giometti Luz Magalhães, responsável pela arregimentação dos participantes na MMDC.

Os meninos foram treinados na Escola Superior de Sargentos da Polícia Militar, Sargento Roselin Dias. Acompanhados dos pais, receberam o fardamento, assistiram a um vídeo sobre a Revolução de 32 e ouviram uma breve explicação sobre o movimento. Quase todos são netos ou bisnetos de veteranos. No desfile do ano passado, nove crianças e adolescentes marcharam ao lado de adultos. “Temos agora o maior número de participantes”, informou Sílvia Magalhães. 

Provavelmente nenhum veterano ex-combatente comparecerá este ano ao Ibirapuera. “Temos apenas 19 sobreviventes, se não tiver morrido mais alguém”, observou o coronel reformado Mário Ventura, de 80 anos, presidente da Sociedade MMDC. Da lista de veteranos, constam ex-combatentes da antiga Força Pública (atual Polícia Militar), todos com mais de 104 anos, e civis que serviram como escoteiros, ainda adolescentes, para entrega de correspondência às famílias dos soldados.

Um dos veteranos, coronel Irany Paraná do Brasil, de 104 anos, escreveu em 2005 o livro 1932 – A Guerra de São Paulo, no qual conta a sua experiência na luta e interpreta os fatos que provocaram a Revolução Constitucionalista, à qual aderiu aos 18 anos. 

“Muitos perguntam que guerra foi aquela entre irmãos... Perguntamos a nós mesmos e respondemos: não, de nada valeu aquele sacrifício”, escreveu o coronel em 2005, ao citar um comentário do historiador Hélio Silva sobre a necessidade de se analisar a guerra paulista e suas consequências com base em depoimentos de personagens que dela participaram. Foi o que fizeram outros historiadores que estudaram o episódio, entre eles Hernâni Donato (A Revolução de 32), Antônio Carlos Pereira (Folha Dobrada), José Alfredo Vidigal Pontes (1932, o Brasil se Revolta), Marco Antonio Villa (Imagens de uma Revolução) e Carlos Daróz (Um Céu Cinzento, a História da Aviação na Revolução de 1932).

“A Revolução de 1932 é um dos episódios menos conhecidos da história recente do Brasil, apesar de haver sobre o assunto vasta literatura”, afirma o jornalista Antônio Carlos Pereira, na Introdução de Folha Dobrada, publicado em 1982. Editor de Opinião de O Estado de S. Paulo, ele descreve o engajamento do jornal e de seus proprietários, a família Mesquita, na guerra contra o presidente Getúlio Vargas, que haviam apoiado em 1930. O movimento de oposição não foi só da oligarquia e dos barões de café, como alguns analisam, mas da maioria do povo paulista, com apoio da Força Pública, que logo aderiu à revolta. Nem foi um movimento separatista – como afirmavam os adversários.

A revolta uniu políticos, empresários, militares e milhares de voluntários. As elites se mobilizaram pelo Partido Republicano Paulista (PRP), em aliança com o Partido Democrata. A chegada de Vargas ao poder acabou com a política do café com leite, pela qual paulistas e mineiros se revezavam no governo. São Paulo, o Estado mais rico da federação, perdeu espaço no cenário nacional e aliou-se a Minas e ao Rio Grande do Sul contra a incipiente ditadura, quando Vargas dissolveu o Congresso e as assembleias estaduais. 

84 dias. Os paulistas decidiram pela luta armada. A deflagração estava marcada para 14 de julho, mas foi antecipada para o dia 9, por causa do risco de traição. A convocação para a luta atraiu, em dois dias, cerca de 50 mil voluntários. A guerra durou 84 dias, de 9 de julho a 2 de outubro. Sob o comando do general Isidoro Dias Lopes, veterano da Revolução Paulista de 1924 contra Artur Bernardes, o general Bertoldo Klinger foi nomeado chefe das operações e o coronel Euclydes Figueiredo assumiu a Frente Norte, no Vale do Paraíba.

São Paulo inscreveu mais de 200 mil voluntários, mas só uns 30 mil ou 40 mil tinham condições de lutar. As forças federais ultrapassaram 300 mil soldados. As baixas foram enormes. Marco Antonio Villa fala em 634 mortos constitucionalistas, enquanto Hernâni Donato calculou mais de mil.

A imprensa paulista apoiou e incentivou o movimento até o fim. Apesar de consecutivos revezes, os jornais informavam que os constitucionalistas iam vencer. “O Exército da lei mantém valentemente as suas posições”, dizia a manchete do Estado, em 29 de setembro, quatro dias antes da rendição. Julio de Mesquita Filho, que lutava na linha de frente do Vale do Paraíba, ao lado de seus irmãos Francisco e Alfredo Mesquita, protestou, com outros líderes civis, quando o general Klinger propôs o armistício e se rendeu ao poder central, no dia 2 de outubro. Os civis acreditavam que São Paulo ainda teria condições de virar o jogo. Não tinha.

Motivos da derrota. Historiadores e analistas militares apresentam três motivos para a derrota da Revolução Constitucionalista: a precariedade de armamentos, o fato de o general Klinger não ter trazido de Mato Grosso, onde era comandante, os homens prometidos (desembarcou na Estação da Luz com 10 subordinados) e o fato de o coronel Euclydes Figueiredo não ter avançado logo para o Rio. O coronel estacionou tropas em Cruzeiro, à espera de reforços mineiros e gaúchos. Foi um erro: Minas e Rio Grande do Sul aderiram às tropas federais de Getúlio Vargas.

Presos após a derrota, os principais líderes da Revolução foram deportados para Portugal. Eram 48 oficiais do Exército, 3 da Força Pública e 53 civis, entre os quais Julio de Mesquita Filho, Francisco Mesquita, Paulo Nogueira Filho, Pedro de Toledo, Antônio Mendonça e Guilherme de Almeida. Voltaram em 1933, com a anistia decretada por Getúlio. “Entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 1932”, afirmou o presidente, ao nomear interventor o paulista Armando de Salles Oliveira, depois eleito governador pela Assembleia. Em 1934, o País ganhou Constituição e liberdade que durou pouco tempo, até 1937, quando o Estado Novo reinstalou a ditadura. Os revolucionários constitucionalistas consideraram que tiveram uma vitória política em 1932, apesar da derrota militar. 

 

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