Ailton Cruz/AE
Ailton Cruz/AE

Três meses após a chuva, calamidade não tem previsão de fim em Alagoas

Em 19 cidades, 1.200 barracas recebem flagelados e milhares esperam vagas; 41 mil m² foram destruídos e prejuízo chega a R$ 1 bilhão

Ricardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

As 152 barracas surgem em fileiras como ruas, com varais na parte de trás. Café e sopa são doados e o almoço vem na marmita comprada pelo governo. A higiene limita-se a banheiros comunitários. Quem observa de longe a cidade de Branquinha imagina que se trata de um acampamento. Mas é tudo o que sobrou para centenas de desabrigados das enchentes que, há três meses, devastaram 19 municípios de Alagoas. E a situação não tem prazo para mudar.

Na terça-feira, será prorrogado por 90 dias o estado de calamidade pública em Branquinha e mais 14 cidades alagoanas - outras quatro seguem em situação de emergência. Enquanto aguardam as casas de 64 m² que estão para ser construídas com a ajuda do governo federal, os flagelados vivem em 1.200 barracas de lona doadas pelo Rotary Club Internacional e pela Defesa Civil. E ainda faltam montar 1.400 para abrigar as famílias que prosseguem "acampadas" em escolas, ginásios de esportes e outros equipamentos públicos.

Somente agora o poder público conseguiu fazer o balanço dos prejuízos com a chuva. As perdas chegaram a R$ 1 bilhão (apenas a destruição de prédios públicos e estradas alcançou 41.155 m²). O número de mortos chegou a 27, mas dezenas de desaparecidos seguem com situação "em aberto".

A face mais visível da tragédia continua a ser as barracas, usadas anteriormente em períodos menores para vítimas de terremotos (como no Haiti e no Chile), que devem receber a maior parte das 17.938 famílias alagoanas que perderam tudo - até os documentos.

São casos como o da dona de casa Mônica dos Santos Rodrigues, de 31 anos. Ela está alojada em uma das barracas com o marido, Edvaldo Silva Rodrigues, de 40, e os três filhos. O mais novo tem menos de 1 ano. Desempregado e quase cego de um olho, Edvaldo tenta uma aposentadoria no INSS, mas é tanta a documentação exigida que ele está quase desistindo. Por isso, tenta também reinserir a mulher no Programa Bolsa Família, mas não tem sido fácil. "A gente morava na Rua da Várzea, na beira do Rio Mundaú. Quando a cheia veio, perdemos tudo."

Durante o processo de ocupação das tendas, as centenas de voluntários da Defesa Civil procuraram colocar as famílias que moravam na mesma rua - destruída pelas enchentes, numa cidade que literalmente foi riscada do mapa - em barracas vizinhas. "Fizemos de tudo para manter as pessoas perto umas das outras, para aliviar a tensão provocada pela mudança. Mesmo assim, reclamam que estão distantes de tudo", diz a voluntária Maria Denise da Silva.

"Aqui a gente não pode fazer uma comida, não pode criar um animal, não tem um terreno para plantar uma verdura, não tem um pé de fruta", corrobora o agricultor José Ferreira da Silva, de 53 anos, com o neto de 5 meses de vida no colo. "Estamos isolados de tudo e de todos, mas fazer o quê? A gente só pode esperar pelo governo."

DEPOIMENTO

Maria China

COMERCIANTE QUE SÓ VOLTOU PARA CASA 12 DIAS DEPOIS DA CHEIA

"O que restou, roubaram"

"A gente só se sente à vontade na casa da gente. Mas lá apareceram três cobras dentro, uma delas de noite, quando colocamos os colchões no chão de um dos quartos para dormir. Pior: investi todas as economias numa lanchonete no centro da cidade (Branquinha), mas veio a cheia e levou tudo que eu tinha. Só restou o prédio, mesmo assim está condenado pela Defesa Civil, porque fica nas áreas de risco. As coisas que tinha dentro perdi tudinho e o que restou, roubaram. Levaram até a cerâmica do piso, as louças, o balcão e a pia. Só temos a pensão do meu marido para viver."

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