Três historinhas russas (e ruças)

Chegado o mês de dezembro, chegou também na revista a hora de preparar a tradicional edição com um balanço do ano. Tudo deveria estar na gráfica uns dez dias antes do réveillon, para ser lido no começo de janeiro. Haveria, assim, duas semanas a descoberto - o que, para a maioria dos jornalistas engajados no mutirão, não representava problema. O mesmo, porém, não se passava com o pobre diabo incumbido de contar como tinham andado as coisas na Polônia nos últimos 12 meses.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2011 | 00h00

Tinham andado mal, e agora pior ainda: ciosa de sua autoridade sobre os países que em torno dela gravitavam, a União Soviética não estava gostando dos arreganhos autonomistas de uns tantos poloneses, sobretudo a turma do sindicato Solidariedade. Se os rebeldes não baixassem a crista, dizia-se, Moscou não hesitaria em invadir a Polônia.

Do ponto de vista de quem ia escrever o balanço, até seria bom se as tropas invadissem logo, criando um fato consumado, ainda que trágico e revoltante. O diabo era o vai-não-vai, o não-ata-nem-desata: o que escrever hoje para alguém que vai ler daqui a duas semanas, quando tudo, ou nada, pode ter acontecido, tornando meu texto obsoleto?

- Põe assim - receitou a chefia: "No final do ano, nuvens negras se adensavam no céu da Polônia..." E explicou: se tiver havido invasão, a gente bem que avisou: nuvens negras prenunciam temporal. Se não tiver, quem é que vai se lembrar?

Entrou janeiro e, como se sabe, não choveu na Polônia. Nada que se compare, em todo caso, com a borrasca na qual poucos anos depois iria se afogar a União Soviética.

*

Mal se soube que Leonid Breznev estava doente, e na redação da revista brasileira se pôs em marcha uma reportagem de capa sobre a morte do líder soviético. Trazendo, já nas primeiras linhas, uma descrição detalhada dos acontecimentos. Mas como? - quis saber o redator -, se o homem ainda está vivo? De fato, admitiu a chefia, o homem ainda não batera os coturnos, mas já dava para imaginar a cena: "Na gélida madrugada de Moscou, um inusitado desfile de negras limusines diante do Kremlin indicava que algo não ia bem..." O importante, acrescentou, é não estarmos desprevenidos, pois o cara pode morrer depois do nosso fechamento.

Na sexta-feira, duas matérias de capa baixaram às oficinas, uma com o desfile de limusines, outra com algum assunto da semana. Na segunda-feira, como Breznev se obstinasse em seguir vivo, exumou-se a reportagem, que, feito a múmia de Lênin na Praça Vermelha, recebeu retoques, antes de descer novamente na sexta seguinte. E assim foi durante semanas, ao longo das quais o texto, qual ioiô, subia e descia, para interminável polimento.

Um dia, já em novo emprego, o redator vê a notícia da morte de Breznev e corre à banca. Matéria de capa, sim. Mas nem uma linha de sua autoria. E nem sinal de inusitado desfile de limusines negras diante do Kremlin na gélida madrugada moscovita.

Nada como a vida (no caso, a morte) real.

*

- O homem quer falar com você - comunicou a chefia ao redator, adiantando que o capo tinha "instruções especiais" para alentada matéria sobre a União Soviética, àquela altura dos anos 80 já cambaleante.

Munido de caderneta e lápis, o redator encontrou o diretor escarrapachado no trono, que seu corpanzil preenchia integralmente, a folhear revistas velhas - como se do passado lhe pudesse vir algum alento para tocar aquela "mina de sal", a redação do semanário. Pôs sobre o subordinado todo o tédio de seus olhos verdes e entrou a descrever uma cena ambientada nalguma fazenda coletiva, no mínimo na Sibéria, onde, em dia de chuva e neve, um truculento comissário ordena à tigrada sob seu comando que pegue umas pedras enormes e as carregue até um lamaçal vizinho. Todos obedecem, menos um obscuro camarada, que emerge da passividade socializada para comunicar, olha aqui, não vou carregar pedra nenhuma, tá sabendo?, você pode pegar uma por uma e enfiar, tá me entendendo?, lá mesmo, você sabe onde!

Em frente à mesa do diretor, o redator sustém no ar a caderneta em branco, até que o timoneiro esclareça:

- Esse é o espírito da matéria!

E assim se fez.

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