Trechos

"Querido Diário!

, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Sete meninos já me pediram para que ficasse junto com eles. Sempre falei que não, mas entendi que em algum momento precisaria começar. Então, disse "sim" para Bernard. Todas as meninas me invejam."

l.º de abril de 1941:

"18 horas. Parada na janela, esperando o Bernard para brincar. Ontem, quando nos despedimos, ele me deu a mão pela primeira vez."

3 de abril de 1941:

"No sábado, entregarão o boletim e teremos as notas das provas trimestrais. Será que continuarei a ser a segunda da classe? Ontem à tarde, enquanto as outras crianças iam à missa, eu fiquei e ajudei "Ma soeur Josephine" (irmã Josephine, uma freira) a cuidar do jardim. Tenho meu próprio canteirinho de flores "primaveras"."

9 de abril de 1941:

"Neste sábado, farão três semanas que estou com o Bernard. Por que será que ele me prefere? Tantas meninas correm atrás dele. (...) Ele ama sua "patrie" acima de tudo, gosto muito disso. Ele tem muito boas maneiras (o que tranquiliza minha mãezinha)."

16 de abril de 1941:

"Ah, sim! Helmuth S. está aqui agora. Um rapaz bem bonito. Tem 19 anos e convidou-me para ir ao cinema um dia desses. É o primeiro homem que me corteja!!!"

30 de abril de 1941:

"Bernard foi embora... Sem se despedir. Como posso entender isso?!? Ele partiu no dia 29. Por que não me disse "adeus"? Estaria mesmo tão impedido? Não teve oportunidade de fazê-lo? "Do júbilo celestial à tristeza mortal, é a sina da alma que ama""

26 de maio de 1941:

"Sozinha... Uma eternidade... Por que ele não me escreve? Será que tem outra? Você compreende, caro diário, a palavra "sozinha"? Sem amor? (...) Estou sentada na janela, de anágua, esperando que a água ferva. Boa noite. Será que sonharei com ele!?"

20 de dezembro de 1941:

"Estou muito feliz. Começaram as férias de Natal. Resultado dos exames: a segunda, com três distinções - bom comportamento, atenção, excelência. Aprovação com louvor. Provavelmente não voltarei ao colégio depois das férias, porque o ensino é obrigatório só até os 14, ou aos 16 anos. Anne Deutsch partiu."

8 de janeiro de 1942:

"Bernard escreveu!!! Vou responder imediatamente. (...) Bernard mandou-me beijos na sua carta... Helli não poderá mais vir. Ele está num Lager (campo de concentração) com o pai há cerca de três meses. Lamento muito. Quero entrar logo na Bund Sionista. Porque também anseio ir à Palestina, terra de nossos antepassados. Quero virar devota. O bom Deus me ajudará nisso. Tomara Deus que possa me encontrar com os queridos avós lá. (...) Não como carne de porco desde a terrível noite em La Panne."

Memória de Maio de 1940

"Quando aconteceu o bombardeio, o fogo tomou conta do quarteirão e chegou a cinco casas da nossa. (...) As bombas caíam interminavelmente. Da entrada da cidade, os alemães atiravam para dentro. Os ingleses em fuga estavam no outro extremo. Na frente da nossa casa, estava montada uma metralhadora. Atrás da casa, no porto, os ingleses em seus navios também atiravam. Para comer, não tínhamos nada além de ovos duros, que por muito tempo não aguentei mais ver, e chocolate. Estávamos sentados num porão, com 32 pessoas muito devotas e durante toda a noite recitamos nossa Oração dos Mortos. Vou te contar rapidamente, diário, como foi nossa fuga. Manhã de guerra: acordada por tiros e disparos fortíssimos no ar. Papai disse: Guerra! (...) Chegou uma ordem para que todos os refugiados de nacionalidade alemã se apresentassem. Nós já havíamos perdido a cidadania alemã, mas nos apresentamos assim mesmo. (...) Quase todos os moradores da nossa rua, tomados pelo pânico, estavam fugindo em direção à França. (...) A estrada que conduzia a Dilbeek estava preta de gente. (...) Tio Erich retornou tão rápido quanto podia, parte de carro, parte andando, porque os bondes já não funcionavam. Duas horas mais tarde, ele golpeou freneticamente nossa porta. (...) Dizendo: preparem as malas imediatamente, vamos para a "Gare du Midi" (estação central). A estação estava toda preta de gente querendo embarcar. As passagens eram de graça, então fomos de primeira classe. Mas foram16 horas, em pé o tempo todo. Depois de Ostende não senti mais minhas pernas.

Na estação, as irmãs da Cruz Vermelha aguardavam os refugiados, ou, mais bonito, os "evacuados", com bebidas. Almoçamos no restaurante fino de um hotel. No dia seguinte, já havia sido destruído. (...) Por fim, num bar do porto, conseguimos dois quartinhos. Fomos dormir às 21 horas para descansar bastante. Às 21h30, caiu a primeira bomba. As janelas se abriram de golpe, por causa da pressão. As cortinas esvoaçaram. Nos vestimos num piscar de olhos para descer até o porão. (...) Ficamos todos na diminuta adega, no porão, com o cão da dona do bar. O homem deitado ao meu lado beijava as pontas dos meus dedos sem parar. No outro dia, Ostende oferecia um aspecto lamentável por causa do bombardeio. (...) Seguimos para La Panne. (...) No caminho, cruzamos com o tio Max, que gritou: "Pension de L"Avenue, em Dunquerque, é meu endereço". Ficamos por três dias! Depois, outra partida."

TRADUÇÃO: IRENE G. FREUDENHEIM

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