Trapos e arcadas de Fagundes Varela

Outro dia, lendo a trágica história pessoal de Fagundes Varela, poeta que teve uma passagem pela São Paulo antiga, encontrei a expressão "São Paulo da garoa". Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875) era do Rio e conheceu a temperatura local quando morou entre os paulistanos na segunda metade do século 19. Ele tentava cursar Direito no Largo de São Francisco. Mas não conseguiu concluir a empreitada.

, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2010 | 00h00

Muitos dos alunos do Largo de então tiveram papéis relevantes na história das leis e da política brasileira. Varela, não. Não deu tempo. Teve a vida desgraçada pela morte de filhos pequenos. E logo abandonou o mundo. Varela (foto) deixou o nome marcado na poesia, assim como um jovem idealista, de 18 anos, que conheceu, em 1865, em viagem de navio, rumo ao Recife. Era Antônio Frederico de Castro Alves. Feitas as apresentações a bordo, os poetas engataram na prosa sobre a atmosfera de São Paulo. Disse Varela a Castro Alves:

"Menino, você precisa conhecer as loucuras que vivemos na São Paulo da garoa, sob a tutela da velha academia do Largo de São Francisco! Nossa tenda de magia fica sob as famosas "arcadas" do velho Colégio Anchieta. Ali tingimos os trapos de uma nova civilização!", contou Varela, que tinha 24 anos. O novo amigo, baiano, se tornaria símbolo do combate à exploração humana.

Esse diálogo é parte de obra sobre Castro Alves (Editora Três), supervisionada por Afonso Arinos e Américo Lacombe. Castro Alves(1847-1971) idolatrava Fagundes Varela. Seguiu o conselho do amigo e provou do clima e das arcadas. E, em suas cartas, era rabugento com o frio. A cidade costumava ver geadas até na vizinhança da colina da Sé. O friozinho daqueles dias já não ocorre. Mas a chuva fina, sim. Refresca o ar da metrópole e permanece como musa de muita gente.

Agostini, cem anos de morte do traço

Um dos principais cronistas da velha São Paulo da garoa recebe homenagem aos cem anos de sua morte. É Angelo Agostini (1843-1910), caricaturista de jornais como Diabo Coxo ( 1865) e O Cabrião (1866) (foto), além de outras publicações. Na quarta-feira, o Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) promove encontro sobre a obra do artista, que deixou rica produção sobre o modo de vida de sua época.

Na vila colonial, santo coronel

Na vila primitiva de São Paulo, nascida com a forte presença religiosa, em muitos momentos o estado colonial e a Igreja marcharam lado a lado. Relatos dos jesuítas contam cenas de batalhas terríveis do soldado português contra os nativos que resistiam em Piratininga nos primeiros séculos de ocupação - reproduzidas, por exemplo, na arte de Debret.

A parceria era considerada tão vital para o sucesso da empreitada na terra da garoa que o governador Luiz Antônio de Souza Botelho Mourão, o morgado de Mateus, recorreu, em 1767, ao poder militar da santa hierarquia: deu a patente de coronel a Santo Antônio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.