Trapalhadas

Maldita hora, conta o Nelson, em que a dona da casa lhe propôs tomar um banho.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2013 | 02h03

Mirtes tinha sido sua colega na faculdade e vivia agora em Paris. Depois de um tempo sem se verem, ele estranhou a metamorfose que havia convertido a moça tímida e conservadora do interior goiano naquele ser loquaz a borbotar modernidades.

Escarrapachada no carpete, baseado e birita entre os dedos, a Mirtes desfiava com fartura de palavrões um torrencial relato autobiográfico. Em minutos soube o Nelson que o ex-bicho do mato tinha incinerado todos os condicionamentos burgueses da sua formação goiano-católica - ao ponto de ter planejado e tido uma filha à revelia de um incauto inseminador. Graça de menina, aliás, a Carol, 5 anos de idade, espevitada que nem a mãe.

Deve ter sido a cara (de cansaço?) do Nelson que levou a Mirtes a interromper a discurseira: quer tomar um banho? Bem... - hesitou ele, ali como visita apenas... A amiga insistiu, qual o problema? - e o Nelson já ia se trancar no banheiro quando a Carol anunciou:

- Quero tomar banho com o tio!

Mais inesperada ainda foi a reação da mãe:

- Claro, meu amor!

E agora lá estava o Nelson nu sob o chuveiro e o olhar perscrutador da garotinha. Só falta a Mirtes aparecer... - temia ele, ensaboando-se freneticamente para abreviar a agonia. Não tinha, aliás, tanta coisa assim para lavar.

- O que é isto, tio? - quis saber a Carol, por pouco não cutucando o objeto de sua curiosidade.

- Isto...sto... - tartamudeou o visitante - ... é o pinto do tio...

- Não, tio! O outro, atrás dele!

- Digamos que faz parte do conjunto - rosnou o Nelson, encerrando, ainda meio ensaboado, o que foi o banho mais rápido de sua vida.

***

Esta é outra do Pipoca, a cujas pipoquices já dediquei toda uma crônica. Homem sensível, poeta, porém dado a dizer uma coisa quando quer dizer outra, meu querido amigo viveu como perda pessoal o desaparecimento do dálmata da irmãzinha. Não só se incorporou ao choro da menina como, em segredo, botou anúncio no jornal. No dia seguinte, uma catadupa de gozações no telefone da casa:

- É aí que sumiu uma zebra?

Zebra? - estranhou a família, até que o Pipoca, desolado, mostrasse o anúncio, ao qual não faltara um pipocal equívoco ao descrever a pigmentação do dálmata: "Procura-se um cãozinho listrado..."

***

Eu estava naquela ótica, em Miami, para entrevistar o dono, sobre assunto que nada tinha a ver com oftalmologia. Enquanto esperava, corri os olhos pelos mostruários - e dei com a armação que há anos vinha procurando. Já ia apanhá-la quando chegou o entrevistado, o que me forçou a mudar de ideia: não ficaria bem misturar os papéis de repórter e comprador. Deixei para depois. Na saída, porém, o camarada fez questão de me acompanhar à rua, empatando uma vez mais a compra. Dei um tempo até que ele sumisse nos fundos da loja, catei a armação e corri ao caixa. De volta ao Brasil, fui saborear a aquisição - e aí me dei conta do quanto a pressa me custara caro: tamanho errado.

Deu trabalho achar, entre os amigos, algum cujo rosto tivesse as dimensões de um queijo grande.

***

Mal chegou a notícia da morte de dona Almerinda, as quatro irmãs voaram para a casa da amiga. Compungidas, cruzaram a varanda apertando mãos e embarafustaram rumo ao quarto onde jazia dona Almerinda. Três delas, ao lado da cama, se persignaram e puxaram uma reza, enquanto a outra, mais saidinha, se pôs de joelhos e, prestativa, deu uma ajeitada nos lençóis. Foi o que bastou para que a falecida, provando que não o era, movesse uma perna e exalasse um suspiro, ainda não o derradeiro.

Desnecessário dizer que não tiveram condições de dar as caras quando, no dia seguinte, dona Almerinda voltou a suspirar, agora sim, pela última vez.

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