Tragédia faz saga imigrante virar entulho

Português dono da Confeitaria Colombo mandou erguer edifício homônimo destruído na tragédia do centro do Rio

WILSON TOSTA/ RIO, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2012 | 03h05

O desmoronamento do Edifício Colombo, uma das três construções que ruíram na semana passada na Avenida Treze de Maio, no centro carioca, reduziu a escombros um dos símbolos da trajetória de um homem que, em sua ascensão de imigrante pobre a empresário vitorioso, mandou erguer o prédio - uma das joias do estilo art déco no Rio.

O desastre fez sumir da paisagem uma das marcas deixadas pelo português Eloy José Jorge, que aos 13 anos chegou sem tostão ao Brasil do início do século 20, trabalhou com um tio na tradicional Confeitaria Colombo, virou dono do negócio e resolveu batizar com o nome do empreendimento que amava o edifício erguido em ponto nobre do então Distrito Federal.

"A vida do meu avô era a Colombo", recorda Vera Marina de Barros Jorge, neta e uma das herdeiras-proprietárias do prédio que virou entulho sob o impacto da queda do vizinho Edifício Liberdade, na quarta-feira da semana passada. Seu Jorge, como Eloy, lusitano da região do Porto, era conhecido por empregados e amigos, seguiu o caminho de outros milhares de jovens portugueses de seu tempo. Mais de cem anos atrás, sem perspectivas no Portugal que parecia sem rumo, recusou-se a tentar seguir as poucas carreiras que davam algum futuro no seu país - não queria ser padre nem militar - e embarcou para o Brasil. Inseria-se no roteiro do Rio de então, cujo comércio era dominado por portugueses que empregavam, basicamente, patrícios, em muitos casos "importados" da terra natal já com emprego garantido por compatriotas aqui.

Assim, encontrou abrigo e trabalho na Colombo, que seu tio, Joaquim Meirelles, fundara em 1894 com o sócio Manoel Lebrão. "Os dois vieram para o Brasil e resolveram fazer um estabelecimento nos moldes de uma confeitaria europeia", relata Vera Marina.

Na Colombo, entre doces, salgados e geleias, Jorge "fez de tudo". Como era comum, dormia na confeitaria, como outros empregados - havia um andar destinado ao alojamento dos funcionários. "Quando queriam casar, eles tinham de pedir permissão ao patrão", conta Vera.

Investimento. Jorge trabalhou duro, economizou, virou um dos sócios e, por fim, dono da confeitaria. Também repetindo o roteiro de outros portugueses, investiu parte do que lucrava em imóveis - um deles foi o prédio de dez andares no centro do Rio, nos fundos do Theatro Municipal, erguido em 1938. O encarregado do projeto foi o arquiteto Paulo Santos, da empresa Pires & Santos e Cia. Foi Jorge que batizou o edifício com o nome do negócio querido. "Meu avô pegou o melhor construtor da época", diz Vera Marina.

Ela especula que o terreno onde foi construído o prédio, em ponto privilegiado da então capital da República, foi fruto de contatos de Jorge com políticos da época que frequentavam a confeitaria em um centro do Rio muito mais vivo do que hoje. "Iam presidentes, chefes de Estado, a rainha da Bélgica foi", conta. O Colombo foi erguido na Rua Manoel de Carvalho, na esquina com a Avenida Treze de Maio.

Segundo o Guia da Arquitetura Art Déco no Rio de Janeiro, editado pela prefeitura em 2000, o prédio combinava resquícios "de típica decoração art déco (frisos, escotilhas)" com "características modernas, como (...) predominância de vazios sobre cheios (...) restritos aos pilares estruturais e vigas (...)".

Jorge morreu em 11 de maio de 1963, aos 83 anos, em sua casa na Rua Aprazível, em Santa Tereza, quando, ainda na ativa, preparava-se para ir para o trabalho. Vinte e sete anos depois, no início dos anos 1990, sua família vendeu a Confeitaria Colombo para a Arisco - em um dia de aniversário da morte do comerciante. Manteve, porém, outros bens legados pelo imigrante português, como o edifício atrás do Municipal, alugado para empresas de engenharia, contabilidade e outros negócios, até que se desmanchou na semana passada, soterrado pelas toneladas de escombros do Liberdade.

Tragédia. Se a Colombo saiu da vida da família de Eloy José Jorge há mais de 20 anos, para Vera Marina a história do Edifício Colombo se encerrou subitamente há uma semana, quando um ex-inquilino lhe telefonou para relatar o desabamento, ocorrido poucos minutos antes. Inicialmente, ela não quis acreditar, mas logo as transmissões pela televisão confirmaram a notícia ruim. A tragédia só não foi maior porque uma norma do condomínio - fechar às 20 horas - deixara o prédio quase vazio no momento do desmoronamento, pouco após as 20h30. Ficou soterrado apenas um funcionário, que, como percebeu os sinais do desabamento e tentou correr, conseguir ser resgatado e sobreviveu. No Colombo, o acidente não deixou mortos.

Ficaram, porém, problemas a resolver. O prédio legado por Eloy José Jorge desapareceu - no máximo, deixou um terreno valioso, no centro cultural carioca, perto do Theatro Municipal, da Biblioteca Nacional, do Museu Nacional de Belas Artes, à beira do Largo da Carioca -, mas não gera mais renda, apenas impostos a pagar. A apólice da Porto Seguro é de "cobertura básica simples" no valor de R$ 2,2 milhões e cobre somente uma fração do que foi destruído, além de coberturas específicas bem menores (danos elétricos, R$ 41 mil; responsabilidade civil, R$ 69 mil; vida e acidentes pessoais, R$ 15 mil).

Seguro. "Ninguém faz seguro de desmoronamento, o valor é ínfimo", diz Vera Marina, diante da mesa com uma foto do Colombo recém-construído, tendo ao lado o sobrado com apenas dois andares e, curiosamente, ainda sem o Edifício Liberdade, que na ocasião ainda não existia e os soterraria na semana passada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.