Tragédia do Rio altera estudo de área de risco

Geólogos defendem criação de entidade federal para centralizar ações contra desastres naturais

Felipe Werneck e Bruno Boghossian / RIO, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2011 | 00h00

Um mês após a tragédia que deixou 893 mortos e 408 desaparecidos na serra fluminense, especialistas em geotecnia e hidrologia afirmam que há um consenso: é preciso revisar a metodologia de classificação de áreas de risco no País. Reunidos no Clube de Engenharia, eles defenderam a criação de órgão nacional para prevenir e centralizar ações em casos de desastres naturais.

Presidente da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia (ABGE), Fernando Kertzman diz que os mapas de risco "terão de ser instrumentos de planejamento muito mais abrangentes do que são hoje". "Saí de lá (da região serrana) com conceitos completamente diferentes dos que eu tinha antes", conta.

Segundo ele, os mapeamentos não podem levar em consideração apenas critérios geotécnicos dos morros e encostas. Dados hidrológicos são essenciais e devem ser mais precisos, assim como os meteorológicos.

"Qualquer um de nós compraria um apartamento no prédio (em Nova Friburgo) onde os bombeiros que ajudavam no resgate morreram soterrados", acrescentou Kertzman.

"Vamos ter de revisar algumas coisas depois dessa experiência", avalia o engenheiro geotécnico Willy Lacerda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para Moacyr Duarte, também da UFRJ, é indispensável incorporar novas tecnologias, aliando sobrevoos de baixa altitude a imagens de satélite e inspeções geotécnicas.

Especialistas apontam como modelo de órgão federal a Geo-Rio, criada em 1966, após uma catástrofe: a chuva de verão que deixou 70 mortos e mais de 500 feridos.

"Defendo uma entidade federal para subsidiar as prefeituras, venho batendo nessa tecla desde 2005. Os municípios não têm recursos para manter pessoal especializado", disse Francis Bogossian, presidente do Clube de Engenharia.

Para Kertzman, o órgão reuniria especialistas "perdidos" em departamentos dos Ministérios da Integração e das Cidades, além da Defesa Civil. "É só reunir o que já existe e trabalhar o ano inteiro com previsão meteorológica, com definição de área de risco, com remoção de pessoas que vivem nesses locais e com política de prevenção, não só de emergência", disse o presidente da ABGE.

"A gente estima que com R$ 50 milhões dos R$ 780 milhões que foram destinados agora para emergência se cria uma instituição que vai diminuir muito o número de vítimas em acidentes", destacou.

Habitação. Um antigo levantamento citado pelo presidente da ABGE indica que o Brasil precisa de 8 milhões de novas moradias para tirar pessoas de áreas de risco. "Defendemos a construção de 1 a 2 milhões de casas por quatro ou cinco anos sem parar."

O governo do Rio informou que reservou R$ 1 bilhão da capacidade de endividamento do Estado para investir no Programa Morar Seguro. Mas o empréstimo ainda está sendo negociado com o Banco Mundial. Marilene Ramos, presidente do Instituto Estadual do Ambiente, reconheceu que a burocracia retarda a ação governamental. Para Duarte, "infelizmente somos uma sociedade inconsequente que só pensa sobre cadáveres".

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