Tragédia de Santa Maria roubou 12 mil anos de vida

Número leva em conta idade média dos 239 mortos no incêndio da boate Kiss; acidente completa um mês nesta quarta-feira

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, DENIZE GUEDES, AMANDA ROSSI, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h04

A tristeza provocada pelo incêndio da boate Kiss em Santa Maria é incomensurável para famílias e amigos dos 239 mortos. Mas se há um número que se aproxima da dimensão da tragédia é o de anos potenciais de vida perdidos naquela madrugada de 27 de janeiro. Em poucos minutos, 12.412 anos que estavam pela frente das vítimas perderam a possibilidade de serem vividos.

Para se ter uma ideia do que isso significa, os mesmos jovens que pereceram em Santa Maria tinham vivido, juntos, pouco mais de 5 mil anos. Ou seja, a trajetória das vítimas foi abreviada a menos de um terço do caminho que deveriam ter percorrido em condições normais. O número de anos perdidos foi especialmente alto porque a idade média dos mortos era de apenas 23 anos.

Os Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP) são um indicador demográfico que investiga as causas de morte prematura. "Seu pressuposto é de que as mortes ocorridas antes da idade esperada levam a uma perda de anos potenciais de vida. Assim, ao morrer antes de alcançar uma idade limite, a pessoa perdeu anos potenciais de vida", explica Alberto Jakob, um dos coordenadores do Núcleo de Estudos de População da Unicamp.

Para se calcular os APVP é preciso levar em conta a expectativa de vida média da população analisada. Subtrai-se dela a idade de cada um dos mortos e somam-se esses anos não vividos. Quanto mais jovens forem os mortos, mais tende a crescer o valor final. Por isso, a juventude das vítimas multiplicou o tamanho da tragédia.

O Estado compilou as idades de 232 das 239 vítimas. O resultado mostra que a maioria dos que morreram no incêndio não completara 22 anos de vida. O mais novo entre eles, o estudante de Agronomia Pedro de Oliveira Salla, tinha 17 anos, e a mais velha, Geni Lourenço da Silva, a monitora dos banheiros da boate, tinha 55 anos. A idade mais frequente entre os que não sobreviveram ao incêndio era de 18 anos.

O Estadão Dados usou dois métodos de cálculo dos anos potenciais de vida perdidos. Ambos chegaram aos mesmos 12 mil anos roubados. Levou-se em conta a esperança de vida dos brasileiros para cada faixa etária, segundo o seu sexo, em 2011 (último dado disponível). Os valores foram computados para cada uma das vítimas e depois somados. No outro método, usou-se a esperança de vida média da população gaúcha. Não houve diferença.

Um exemplo real: os namorados Flavia e Luiz Fernando tinham 18 anos quando morreram. Pela média nacional de 2011, ela deveria viver mais 61 anos e ele, mais 55 - os homens têm uma esperança de vida ao nascer sete anos menor do que as mulheres no Brasil, mas essa diferença diminui com a idade. Naquela noite, o casal de namorados perdeu 106 anos potenciais de vida. As 40 vítimas que tinham 18 anos como eles perderam, juntas, 2.357 anos.

A tragédia adicional das mortes prematuras é que elas são, na sua maioria, evitáveis. A probabilidade de um jovem brasileiro com 18 anos morrer antes de chegar ao seu 19.º aniversário é de apenas uma em 476 se for um homem e de uma em 1.830 se for uma mulher. A chance de que isso ocorresse exatamente ao mesmo tempo para 40 jovens é inimaginável. Mas foi o que aconteceu naquela madrugada na Kiss.

As perdas humanas se medem por tudo o que esses jovens deixaram de viver nos 12 mil anos que lhes foram roubados: os casamentos que não se realizaram, os filhos que não tiveram, os sonhos que não alcançaram. Nada disso tem preço. Para a sociedade, porém, é possível estimar o custo financeiro da tragédia.

Prejuízo. O professor Roberto Brito de Carvalho, da Faculdade de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, estima que o impacto econômico da tragédia ultrapasse R$ 1 bilhão. Apenas em renda do trabalho, os 40 anos que, na média, cada uma das 239 vítimas teria de vida produtiva renderiam "algo em torno de R$ 600 milhões", calcula o professor da PUCCamp.

O restante vem dos custos imediatos da tragédia - o trabalho dos bombeiros, dos médicos e enfermeiros, os custos de tratamento dos feridos, de sepultamento dos mortos - e seus efeitos multiplicadores, como benefícios previdenciários e a ausência de descendentes que também se tornariam economicamente ativos. /COLABOROU JULIANA DEODORO

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