Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'Tragédia abre chance para diálogo com jovens'

Especialista destaca que pais precisam escutar o que filho tem a dizer, o que ouviu do massacre e também o que viu

Entrevista com

Karen Scavacini, psicóloga e psicoterapeuta

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 03h00

O horror de uma tragédia como a de Suzano tem a capacidade inegável de levar medo a crianças e jovens estudantes de todo o País, que, com o mesmo perfil das vítimas, se veem como alvos em potencial de um ataque cuja maior marca é a incompreensão quanto à motivação. Para mitigar o temor, o caminho das famílias com seus filhos deve passar necessariamente pelo diálogo, defende a psicóloga Karen Scavacini.

O momento abre uma porta para ouvir os adolescentes sobre a percepção deles sobre o que aconteceu, como isso está repercutindo no núcleo estudantil mais próximo e, principalmente, dá aos adultos a oportunidade de, além de dimensionar a gravidade do crime, se mostrarem preocupados e atentos com a realidade e o cotidiano dos filhos.

Karen defendeu no ano passado sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), em que foca a prevenção ao suicídio, e é fundadora do Instituto Vita Alere, que presta assistência nesses casos. Com o Estado, ela conversou sobre esse momento de luto que toda uma comunidade escolar agora atravessa.

Como as famílias devem tratar com seus filhos sobre o que aconteceu em Suzano? 

As famílias podem aproveitar o que aconteceu para trazer esse diálogo para dentro de casa, já que é um assunto que não é costumeiramente conversado. Os pais têm de escutar o que o jovem tem a dizer, o que ele ouviu falar sobre o caso, o que viu de fotos e vídeos. A partir daí, segue-se uma fase de orientação e acolhimento, porque é esperado que muitos jovens se sintam abalados e inseguros. Mas também pode ser o momento em que alguns vão falar que eles (os atiradores) estavam certos e isso é fundamental como um sinal de alerta.

 

Optar por ignorar o assunto em casa também é uma opção viável?

Sou a favor sempre do diálogo. Quando a família decide não conversar, ela terceiriza a formação de opinião, porque os jovens vão formá-la sozinhos, buscando interpretações nas redes sociais, por exemplo. O momento é excelente para iniciar um diálogo.

 

A senhora falou de sinal de alerta. Como isso se expressa e o que fazer diante dele?

Os pais precisam olhar o comportamento dos filhos e notar de perto as eventuais alterações que os deixam mais agressivos, mais impulsivos, e a ligação com a sensação que eles têm diante de episódios violentos. É também um gancho para uma conversa sobre bullying, não só se ele é vítima, mas também se ele pratica, coisas que por vezes é esquecida pelos pais. É preciso ter em mente que o jovem pode não ser aberto, a princípio, a estabelecer diálogos aprofundados, mas eles vão saber que há pessoas preocupadas e interessadas na vida deles – e isso pode fazer a diferença.

Como e quando transtornos evoluem de isolamento social para episódios violentos?

Isso vai ter muita relação com o que se passa na rotina do jovem e das influências que ele têm. Há três grandes campos que ajudam a entender essa situação: o da personalidade, o biológico e o biográfico. Ou seja, tem de ser levados em consideração desde traços da personalidade inerentes à pessoa, assim como a parte da genética relacionada eventualmente a transtornos mentais e também a biografia da pessoa, o que aconteceu com ela ao longo da vida. Nesse aspecto, um dos pontos importantes é o uso de álcool e drogas, que assumem um papel preponderante diante de um cérebro ainda em formação e podem induzir comportamentos impulsivos, quando as decisões não estão exatamente claras. Há ainda de se levar em consideração a importância de ensino e conversas sobre o que o jovem deve fazer quando está com raiva, e porque está com raiva. Estamos diante de uma geração de jovens que acha que o mundo tem de suprir tudo.

 

Qual o papel de um incentivo externo com caráter de chancela a um ato violento a ser praticado por um jovem?

Pode ser que, para pertencer àquele grupo, as pessoas notem que necessitam agir de uma maneira específica, e isso é um problema especialmente se a comunidade que o está envolvendo o encaminha para atos violentos. O peso desse incentivo pode ter um papel importante e negativo quando o jovem está em um momento de dúvida e recebe um encaminhamento forte para o lado violento. Por isso que a atenção e o apoio da família são fundamentais. Ela pode ter o papel de desincentivo também, encaminhando-o a uma direção oposta à da violência. 

 

Agora se segue uma fase em que o luto é marcante para toda uma comunidade escolar. Como lidar com isso?

É preciso fazer uma avaliação e dedicar especial atenção para os que hoje estão mais vulneráveis e para isso uma equipe multiprofissional é importante. Não só os alunos, mas os pais e professores precisam ser acolhidos. O pronto-atendimento ágil é importante, mas é preciso que a assistência se estenda porque a retomada da rotina vai trazer todas as lembranças do que aconteceu.

Para entender

1. O ataque

Às 9h42 de quarta-feira, G.T.M., de 17 anos, entrou com um revólver calibre 38 na Escola Professor Raul Brasil, em Suzano (SP), onde havia estudado até o ano passado, e começou a atirar. Trinta segundos depois, seu amigo Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, também ex-aluno, entrou munido com uma besta, um arco e flecha e uma machadinha. O massacre resultou em duas funcionárias e cinco alunos mortos. Antes, a dupla havia matado um parente em uma loja próxima. Os dois atiradores também morreram e deixaram 11 feridos.

2. A despedida

O velório coletivo de duas funcionárias e quatro alunos reuniu 15 mil pessoas.

3. Investigação

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, foi acionado, pela suspeita de que um grupo criminoso pode ter atuado com a dupla e colaborado com “crimes relacionados a terrorismo doméstico”. Um fórum que espalha ódio e se esconde nas profundezas da internet passou a ser o foco. 

4. Mais uma suspeita 

O adolescente de 17 anos apontado pela polícia como suspeito de participar do ataque foi ouvido pelo Ministério Público e, depois, liberado. A Promotoria não acatou o pedido feito pela polícia para apreendê-lo.

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