Tráfico não se rende e civis saem feridos

Bandidos ocupam as lajes das casas e moradores fogem com medo dos tiroteios

Pedro Dantas, Gabriela Moreira / RIO, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

     O primeiro dia do cerco do Exército, da Polícia Federal e das polícias ao conjunto de favelas do Alemão, na zona norte do Rio, terminou com quatro mortes em tiroteios e pelo menos cinco civis feridos, incluindo uma criança, duas senhoras e um jornalista que trabalhava na cobertura da operação. A criança se chama Giovana Isabela da Penha Vasconcelos, de 3 anos, e estava em casa quando levou um tiro de raspão no braço.

Desde que os confrontos começaram, no domingo, 49 pessoas já morreram. O último balanço oficial indicava ainda 123 detidos pela polícia e 79 presos. Ontem, Ontem à noite, a Polícia Civil prendeu Márcia Gama Nepomuceno, mulher de Marcinho VP, por envolvimento nos ataques.

Na Favela da Grota, os agentes ficaram a menos de cem metros de uma casamata que serviu de abrigo a traficantes. Depois que pelo menos 200 bandidos fugiram da Vila Cruzeiro, na véspera, para o Alemão, a polícia calcula que pelo menos 500 bandidos estejam no complexo. Um deles seria Fabiano Atanásio da Silva, o FB, um dos chefes do Comando Vermelho.

Os criminosos exibiram armas e provocaram os policiais aos gritos. "Vou meter bala!", berrava um deles.Os bandidos ainda expunham e apontavam fuzis na direção de um grupo de fotógrafos que registravam as cenas na Avenida Itararé, em desafio à investida militar. Ocorreram tiroteios nas Favelas da Grota, Nova Brasília e Fazendinha.

Um dos mortos nos confrontos foi Tiago Ferreira Faria, de 24 anos, o Tiaguinho 3G. Segundo a PM, ele era um dos chefes do tráfico do Morro da Fazendinha, no Complexo do Alemão. Outro homem, ainda não identificado, foi morto com um tiro na cabeça no Morro do Juramento. No Morro Gonçalves, houve outra morte. Um quarto óbito foi contabilizado pela PM, sem detalhes.

Feridos. O fotógrafo Paulo Whitaker, da agência Reuters, foi baleado no ombro esquerdo, quando cobria o confronto na Grota. Foi socorrido no Hospital Pasteur, no Méier, zona norte. Na Avenida Paranhos, também nos arredores da Grota, Luiza de Moraes, de 61 anos, foi baleada na barriga, dentro de casa. Por conta do embate, a ambulância não conseguiu chegar para socorrer a vítima, que acabou levada num blindado da PM para o Hospital Getúlio Vargas.

O traficante conhecido como Mica, um dos gerentes do tráfico na Vila Cruzeiro, também teria sido baleado, além de um paraquedista do Exército. Antes de meio-dia, um major do 16.º Batalhão da PM foi ferido levemente na cabeça, durante um confronto. Pela manhã, agentes da PF, além de militares e PMs, passaram a ocupar os 44 acessos ao complexo e revistaram suspeitos, carros, vans e motos.

Algumas famílias deixaram as favelas carregando eletrodomésticos, com medo de confrontos. Após a chegada de 800 homens da Brigada de Infantaria Paraquedista para o cerco, ouviu-se outro intenso tiroteio, de mais de meia hora. No confronto entre PMs e criminosos, até coronéis pegaram em armas para revidar os tiros. O cabo Leonardo da Silva, do Bope, foi ferido na Vila Cruzeiro e o tenente Rafael Querido, do 16.º BPM, na Chatuba.

Apesar de estarem acostumados com tiroteios constantes e a presença de traficantes, os moradores do Alemão estavam bastante tensos ontem. O vendedor O. S., de 43 anos, explicou o motivo. "Ontem, ao chegar em casa, encontrei dez traficantes na laje da minha casa, que tem vista para a Avenida Itararé, onde a polícia estava concentrada. O cara (traficante) pediu para entrar somente por educação. Armado daquele jeito, todo mundo sabe que ele manda na favela."

Helicópteros. Durante todo o dia de ontem, helicópteros da Polícia Civil e Militar sobrevoavam as 18 favelas o Alemão. Houve disparos de criminosos contra as aeronaves. Nos acessos, as revistas causavam constrangimento a moradores. Dentro da favela, os bandidos se comunicavam via rádio e telefone. As conversas eram monitoradas por policiais dentro da base das operações montada no batalhão próximo ao complexo. Nos diálogos, traficantes planejavam fugas disfarçados em táxis e vans. / COLABOROU RODRIGO BURGARELLI

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