Tráfico mantém baile funk em Heliópolis

Festa nas madrugadas de sábado atrai jovens em busca de drogas, álcool e sexo; moradores não dormem e dizem que poder público nada faz

MARICI CAPITELLI, JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2011 | 03h03

O baile funk da Favela de Heliópolis, na zona sul da capital, nas madrugadas de sábado para domingo, reúne não só jovens da comunidade, mas principalmente grupos de classe média de outras regiões da cidade que vão em busca de drogas. Cocaína, maconha, ecstasy e lança-perfume são vendidos à vontade e consumidos no meio da rua. A compra pode ser feita perto da "boca" ou com os "aviõezinhos" - adolescentes que oferecem os entorpecentes no meio do pancadão. Pessoas ligadas ao tráfico dizem que o lucro médio na festa é de R$ 8 mil, R$ 5 mil a mais que o obtido em dias sem o pancadão.

A reportagem esteve na festa, conhecida como Pancadão Bonde 3 de Heliópolis, no último sábado, que reuniu cerca de 1.500 pessoas. Os moradores da comunidade não dormem por causa do barulho e dizem que as autoridades policiais são omissas.

Além das drogas, consome-se muito álcool no pancadão. A bebida é vendida principalmente nos bares que ficam abertos nas ruas onde ocorre o baile funk, mas algumas adegas em outras vias funcionam a noite toda, facilitando a compra pelos jovens. As bebidas são colocadas em sacos plásticos. E uma das cenas mais comuns são jovens chegando com várias sacolas. "Pega mais duas vodcas", pedia um garoto de cerca de 15 anos para o colega, enquanto cheirava lança-perfume.

Meninas que mal entraram na adolescência e jovens dão o ritmo sensual da festa. Grande parte delas usa vestido curtíssimo, botas ou sapatos de salto alto. Outro look comum são calças muito justas com barriga de fora e seios quase à mostra.

Três adolescentes bebendo uísque no gargalo e fumando maconha dizem que vieram de São Caetano. Questionadas sobre o que faziam lá, a mais jovem, com cerca de 14 anos, respondeu que procuravam sexo.

A festa é caótica. Carros com som potente estacionam nas ruas do baile - a Florestal e a Três de Maio - a partir da meia-noite de sábado. Cada veículo toca um funk diferente e no volume mais alto possível. No último sábado, havia seis carros animando a festa. Frequentadores dançam sobre eles. A festa vai até 8h ou 9h de domingo.

Insones. Os moradores de Heliópolis vivem com os nervos à flor da pele. Eles não conseguem dormir nas madrugadas de sábado para domingo. Além do barulho infernal, não podem entrar ou sair de suas garagens por causa da multidão na porta.

Os bailes acontecem há três anos e a comunidade garante que nunca houve interesse dos órgãos públicos para acabar com o pancadão. A principal reivindicação é a instalação de base comunitária da Polícia Militar no cruzamento das Ruas Três de Maio e Florestal.

Segundo moradores, essa base funcionou durante três meses no ano passado, quando as festas pararam. Os vizinhos dizem que é inútil acionar a Polícia Militar. Luiz Carlos Silva, presidente do Conselho Comunitário de Segurança Heliópolis, diz que a PM faz o possível para coibir a festa. "O problema é que eles não têm efetivo."

Investigação. O delegado Gilmar Contrera, titular do 95.º DP (Heliópolis), diz que há um ano trabalha em um inquérito sobre o pancadão.

Com relação aos bares, como são irregulares, o delegado informou que foram enviados ofícios à Subprefeitura do Ipiranga para que feche os estabelecimentos. A subprefeitura diz que analisa a denúncia.

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