GABRIELA BILO / ESTADAO
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Tráfico faz Prefeitura de SP descredenciar hotel da cracolândia

Antigos usuários terão de deixar lugar nesta quarta-feira, 30; gestão afirma que todos serão atendidos pelo programa em outros lugares

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Em 1 ano e 9 meses do programa De Braços Abertos, a Prefeitura de São Paulo descredenciou mais um hotel que abriga usuários de crack. Este é o segundo estabelecimento retirado do programa; o primeiro foi no ano passado. A ação do tráfico de drogas nos hotéis teria motivado os descredenciamentos. O prazo para a saída dos antigos usuários do Hotel Lucas, na Alameda Dino Bueno, é esta quarta-feira, 30.

Na prática, caso queiram continuar no local, os moradores terão de arcar, sozinhos, com a diária de R$ 70. Eles poderão ser realocados para outros sete hotéis do programa, mas se queixam de “estado de calamidade” dos demais estabelecimentos. Nesta quarta-feira, o coordenador do programa, Benedito Domingos Mariano, deve visitar mais três hotéis na região da Luz em busca de substitutos.

O Hotel Lucas, que foi descredenciado, é administrado por David Ferreira. Ele nega que traficantes tenham se infiltrado no local. Os 23 moradores do estabelecimento se recusam a deixar o hotel. Alguns já saíram dos quartos para voltar a dormir na rua porque dizem preferir a calçada à estrutura precária dos demais locais. A reportagem tentou entrar em dois deles, criticados por beneficiados do Programa, mas foi barrada.

Na calçada do Lucas formou-se um “novo fluxo” - local de consumo de drogas ao ar livre -, após a Prefeitura ter removido os usuários de crack da Alameda Cleveland, em abril. Segundo Ferreira, a Prefeitura alegou ter descredenciado o hotel por estar no meio do fluxo. Aos usuários, porém, a gestão municipal teria sugerido a mudança dos moradores para dois hotéis a alguns metros do fluxo. A Prefeitura nega e diz ter indicado dois hotéis mais afastados.

“A Prefeitura quer nos mandar para hotéis cheios de rato, sem ventilação e água. Nós não vamos sair daqui de jeito nenhum. Se preciso, vamos protestar na porta da Prefeitura”, afirmou Franciele Silva, de 35 anos, moradora do Lucas.

Ela e o marido ganham juntos, por mês, R$ 920. Se todo o salário fosse gasto com as diárias, o casal só teria dinheiro para pagar 13 dias. 

De acordo com moradores do hotel, a Prefeitura esteve no local na segunda-feira, 28, desmontando camas, de propriedade municipal. Simone Silva da Cruz, de 46 anos, mora no Lucas desde o começo do programa, em janeiro de 2014. Ela diz que foi surpreendida na sexta-feira. Quando chegou ao quarto, estava sem cama. “Estou dormindo há quatro dias na calçada e não sei por quê. Não estou entendendo nada.”

“O Hotel Lucas foi descredenciado por dois fatores: inadequação das instalações e falta de garantia de acesso de circulação das equipes de assistência social e da saúde que acompanham os beneficiados nos hotéis”, explicou Mariano.

Segundo o coordenador do programa, a Prefeitura tem dado apoio desde a semana passada para a retirada dos moradores. Hoje são 503 beneficiados e, com a saída do Lucas, são sete estabelecimentos vinculados ao De Braços Abertos.

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