Tráfico atinge 92 dos 95 bairros de São Paulo

Análise de 9.252 ocorrências, entre 2007 e o 1º semestre deste ano revela que crime ganha espaço

Eduardo Nunomura, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2009 | 15h49

Nove em cada dez traficantes em São Paulo são presos com menos de 1 quilo de maconha, 500 gramas de cocaína ou 50 gramas de crack. Uma única apreensão de crack no Jabaquara supera a soma das mais de 200 em Santa Cecília, onde fica a nova cracolândia. O Departamento de Narcóticos, órgão especializado da Polícia Civil, retirou só 4 quilos de maconha das ruas da capital durante seis meses. E a maior apreensão da droga, de 8,5 toneladas, ocorreu por pura sorte. O caminhoneiro que transportava a mercadoria perdeu o freio e bateu em outros carros perto de Paraisópolis. A Polícia Militar, chamada para evitar um linchamento, trombou com a carga.

 

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A realidade descrita acima emerge da análise de 9.252 ocorrências que resultaram na prisão de traficantes na capital paulista entre 2007 e o primeiro semestre deste ano. Levantamento do Grupo de Atuação Especial de Repressão e Prevenção aos Crimes Previstos na Lei Antitóxicos (Gaerpa), do Ministério Público Estadual, obtido com exclusividade pelo Estado, revela o mapa do tráfico paulistano. São Paulo vem perdendo a guerra contra as drogas. Os criminosos estão espalhados por quase todos seus 95 bairros. Só os ricos Alto de Pinheiros e Vila Mariana e o pobre e despovoado Engenheiro Marsilac ficaram de fora. Neles, as polícias não chegaram a prender nenhum criminoso, o que não significa que estejam livres do problema.

 

A soma das apreensões realizadas por todas as forças policiais de 2007 a junho equivale a 24,7 toneladas de maconha, 4,7 toneladas de cocaína e 282 quilos de crack. Quantidades que assustam, mas se sabe que são só a parte retida pelas forças policiais. Especialistas dizem que esse volume representa entre 5% e 10% do consumo.

 

O relatório do Gaerpa é feito com dados de inquéritos policiais que viram processos no Fórum da Barra Funda, no qual ao menos um adulto foi preso. É um banco de dados continuamente atualizado por júris. Não relaciona as ocorrências envolvendo apenas menores de 18 anos ou quando não houve a prisão em flagrante. Mas é amplo por incluir as Polícias Civil, Militar e Federal, guardas-civis, agentes de presídios e seguranças de trens e metrô. É um dos retratos possíveis para mapear o tráfico. A Secretaria de Segurança não comentou os dados.

 

EXÉRCITO DE TRAFICANTES

 

Ao se prender dezenas de milhares de traficantes, criam-se mais problemas do que soluções. Os presídios ficam lotados, pouca droga das ruas é retirada e, em alguns casos, a Justiça abarrotada de processos acaba aplicando a lei em favor dos criminosos. Como há um exército de pessoas dispostas a traficar, formando fileiras quase inesgotáveis, muitos recrutas são réus primários. Se forem condenados, cumprem pena de menos de 2 anos – na prática, reduzida a 10 meses de detenção, porque a lei diz assim. Isso quando não são inocentados.

 

Policiais civis, a partir de uma investigação da Seccional de Santo Amaro, prenderam um artesão por estar num terreno de Parelheiros, na zona sul, em que sabiam haver droga. Com o artesão, que morava num casebre vizinho, com a mulher e a filha pequena, foi apreendida 1,5 tonelada de maconha, a quarta maior quantidade desde 2007. Em abril, o juiz da 19ª Vara Criminal assinalou na sentença: “A vida humilde do réu é incompatível com a de um grande traficante.”

 

O promotor Marcelo Luiz Barone, secretário executivo do Gaerpa, tece diversas críticas à luta antidrogas. “A polícia não sabe onde atacar, atira para tudo quanto é lado e de vez em quando acerta”, diz, acrescentando que ela perde tempo prendendo pequenos traficantes e o órgão repressor, o Denarc, não funciona como deveria. “Vejo um futuro nebuloso, porque o aumento da criminalidade é decorrência da expansão do tráfico.”

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