Wilton Junior/AE
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Traficantes do Rio pós-UPP buscariam ''refúgio'' em Macaé

Operação policial sem prazo para terminar busca retomar favelas dominadas por gangues que fazem até ''tribunal do crime''

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2011 | 00h00

Segunda maior cidade arrecadadora de royalties do petróleo no País e conhecida como "Eldorado nacional", Macaé, no litoral norte do Rio, é palco, há duas semanas, de uma operação policial sem prazo para terminar. O objetivo é retomar as favelas dominadas pelo crime organizado.

O crescimento populacional (20% acima da média nacional) está levando o município a abrigar o maior complexo de favelas fora da capital fluminense, de acordo com avaliação do Gabinete de Gestão Integrada de Segurança de Macaé, que reúne as Polícias Federal, Civil e Militar, além de autoridades.

Dos seus 206 mil habitantes, de acordo com o Censo 2010, cerca de 40 mil vivem em um cinturão de favelas planas, ao leste da cidade, formado pelas comunidades de Fronteira, Nova Holanda, Barra, Brasília, Nova Esperança - além de Malvinas e Botafogo, na Ilha Leocádia, onde vivem 650 famílias em Área de Proteção Ambiental (APA).

A Secretaria de Segurança Pública do Rio descartou a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) neste ano no local, mas a previsão de que a exploração do pré-sal dobre a população macaense preocupa. "Melhor instalar uma UPP com 30 policiais agora do que colocar 300 no futuro", diz o coordenador do Gabinete de Gestão Integrada de Macaé, o coronel do Exército Edmilson Jório. Outra preocupação é a chegada de milícias, grupos paramilitares que cobram os moradores por serviços como segurança e gás.

Invasão. No dia 22 de março, 270 policiais da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil e Militar invadiram as favelas de Macaé. Entre os 27 mandados de prisão expedidos, um era destinado ao traficante Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, um dos chefes da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA), que se refugiou na cidade após a instalação da UPP no Morro do São Carlos, na zona norte do Rio, em fevereiro. Ele não foi encontrado.

Após a megaoperação, o 32.º Batalhão de Polícia Militar de Macaé ganhou reforço de 30 homens do Batalhão de Choque, que continuam realizando incursões diárias nas favelas. Na quarta-feira, traficantes atiraram contra os policiais - em sinal de que seguem por ali. Até agora, 18 pessoas foram presas por envolvimento com o tráfico e porte ilegal de armas. Em Nova Holanda e Nova Esperança, moradores procuraram o Estado para reclamar da "truculência policial".

Crise. O estopim para a crise na Segurança Pública de Macaé foi o assassinato, por enforcamento, de P.V.A., de 15 anos, na Favela das Malvinas, no dia 10. Moradores acusaram policiais militares pelo crime e 200 pessoas percorreram dois quilômetros com o corpo em uma carroça até a prefeitura. "Foi um marco para que as autoridades estaduais agissem", avalia Jório. Uma linha de investigação aponta que ele teria sido morto por traficantes de drogas.

Antes da chegada dos traficantes cariocas a Macaé, porém, o tráfico local já usava métodos similares aos de facções criminosas da capital, como os "tribunais do tráfico". Em 2010, Pâmela de Souza Costa, de 24 anos, foi executada por atropelar e matar uma menina na Nova Holanda. A circulação de pessoas estranhas também é controlada. "Já tive de pedir licença a traficantes para falar com a população", diz o vereador Danilo Funke (PT).

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