Traficante foi avisado de reunião do MPE

Delegado preso é acusado de suposto vazamento de operação contra 13 policiais

Ricardo Brandt / Campinas, Luciano Bottini Filho, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2013 | 02h04

Um bilhete entregue por um traficante e escutas telefônicas autorizadas pela Justiça são as provas que levaram o Ministério Público Estadual (MPE) a pedir a prisão do supervisor da Unidade de Investigações do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), Clemente Castilhone Júnior. O delegado é acusado de suposto vazamento da operação contra 13 policiais, deflagrada anteontem.

Os policiais são acusados de envolvimento com o tráfico de drogas e formação de quadrilha, sequestro, extorsão e tortura de traficantes de Campinas, que são comandados pelo sequestrador Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, de dentro da Penitenciária de Presidente Venceslau.

Segundo relatório do Grupo de Atuação de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o traficante Agnaldo Aparecido da Silva Simão, o Codorna, foi avisado por policiais do Denarc de uma reunião secreta realizada no dia 24 de abril, em São Paulo, quando foi definida a operação de combate ao tráfico na Favela São Fernando, em Campinas.

Consta nos pedidos de prisão que, nos dias 17 e 24 de abril, foram realizadas reuniões no Centro Integrado de Inteligência de Segurança Pública do Estado de São Paulo (CIISP). Participaram representantes do MPE, Polícia Federal e Polícia Militar. O delegado Castilhone Júnior representava o Denarc.

O Gaeco avisou que em "20 dias" seria deflagrada a operação. A mulher de Codorna, Lucilene Cazumbá, ligou para o marido e avisou que um policial do Denarc havia passado em sua casa e dito que era para ele "sumir", porque a favela seria invadida.

Um bilhete foi deixado para o traficante por Pequeno, policial que havia trabalhado no Denarc. O aviso, entregue ao MPE pelo traficante, dizia "Urgente" e tinha um telefone de São Paulo. Pequeno é um dos acusados de cobrar R$ 300 mil por ano e mensalidades de até R$ 30 mil para que Andinho traficasse.

Dúvidas. No relatório, os promotores afirmam que não se sabe se Castilhone Júnior integrava o esquema, se tinha envolvimento com os acusados ou apenas vazou a informação.

Codorna, que acabou preso durante as investigações, teve mulher e filha sequestradas pelos policiais para que lhes pagasse R$ 200 mil de propina. Ele disse também que pediu ajuda de dois policiais do 10.º Distrito Policial de Campinas, na região do São Fernando, para que eles evitassem que policiais do Denarc o achacassem. Eles recebiam mensalidade de R$ 5 mil e R$ 14 mil. Os dois estão presos com outros cinco policiais de São Paulo e vão depor hoje. "O delator do caso tinha todo motivo de querer prejudicar os dois policiais", disse o advogado Ralph Tórtima Stettinger Filho, que afirmou que seus clientes prenderam traficantes locais.

Foragidos. O diretor do Denarc, Marco Antônio de Paula Santos, afirmou que os seis principais policiais suspeitos de serem responsáveis pelo esquema de corrupção e extorsão estão foragidos. Santos disse que vai se reunir com o secretário da Segurança, Fernando Grella Vieira, para apresentar medidas de reestruturação do Denarc. O foco deverá ser o aumento do sistema de controle interno. Ele pretende implementar um maior monitoramento no interior. "Algumas falhas de controle (no interior do Estado) ficaram muito evidentes."

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