Traficante da zona leste deu ordem para matar PMs

Grampos indicam possível atuação de facções em ataques, mas investigação ainda tenta determinar o que fez as mortes começarem

MARCELO GODOY, WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2012 | 03h05

"Libera os meninos para sentar o pau nos polícia." Essa frase foi gravada em uma conversa entre um traficante da Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, e um homem ainda não identificado pela inteligência da Polícia Civil. Ela é um dos principais indícios da suposta participação do crime organizado nas mortes de policiais. A outra é uma gravação na qual bandidos de Paraisópolis, na zona sul, falam em arrecadar R$ 300 de cada "irmão" para o ataque.

Esses são os únicos grampos feitos até agora pela polícia que demonstrariam a possível ligação entre criminosos da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) e os ataques a policiais. Delegados e policiais militares ouvidos ontem pelo Estado, porém, dizem que o quebra-cabeça que envolve esses casos ainda não está completo.

Falta saber exatamente quem mandou fazer o quê. Mais ainda: falta saber se todas as mortes de policiais têm relação. Um exemplo das dúvidas que cercam a apuração é a gravação do bandido - um homem do segundo escalão da facção - da Cidade Tiradentes. Ela foi feita na sexta-feira, por volta das 14h30. Naquele momento, quatro policiais já teriam sido mortos. Assim, se a ordem era para atacar a partir daquele horário, quem teria matado os outros policiais? A mesma dúvida cerca a outra conversa interceptada por uma delegacia da zona sul de São Paulo: ela foi realizada também na sexta-feira.

"Estamos ouvindo diversas denúncias, mas não conseguimos ainda saber o que está ocorrendo", disse um diretor da Polícia Civil. De fato, desde sexta-feira, foram feitas 80 ligações para o Disque-Denúncia da Polícia Civil sobre possíveis ataques e 31 homicídios foram contados pela polícia no Estado durante o fim de semana. "Estamos acompanhando dia a dia os passos da criminalidade", afirmou outro diretor.

Na sexta-feira, além do reforço de policiamento feito na Grande São Paulo, a Polícia Militar decidiu enviar a Tropa de Choque para Paraisópolis e parte da zona leste - locais onde haveria ameaça de ataques. Ao mesmo tempo, policiais da Delegacia de Repressão a Facções do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) foram em carros descaracterizados para a zona leste. Queriam surpreender suspeitos de pertencer ao PCC.

Em Paraisópolis, houve uma troca de líderes recentemente sem que fosse disparado um tiro -um deles retornou da prisão e assumiu o posto. O novo comandante do crime organizado determinou a arrecadação de R$ 300 por cada "irmão" para reforçar o caixa durante os possíveis ataques aos policiais. As ligações foram interceptadas na tarde da sexta-feira e, por isso, a comunidade recebeu um efetivo maior da PM. Desde então, não houve uma morte sequer.

Presídios. Nos presídios, o fim de semana foi tranquilo. Não aconteceu nenhuma rebelião ou ameaça contra agentes. A inteligência da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) também não detectou nenhuma ordem de ataque. A SAP já sabe que o homem preso por matar o soldado da PM Osmar Santos Ferreira, na zona sul, não é filiado a nenhuma facção. "Ele era foragido da Penitenciária de Reginópolis, onde não há facção", disse um integrante da cúpula da secretaria. O acusado - Douglas de Brito Silva, de 23 anos - estava foragido desde agosto de 2011.

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