Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

'Trabalhar com os usuários ficou difícil', diz pesquisador na cracolândia

Marco Sayão Magri, de 25 anos, é recrutador de pesquisa da Fiocruz

O Estado de S.Paulo,

16 de janeiro de 2012 | 23h30

Terça-feira (dia 10). Desde o início da ‘operação sufoco’, o trabalho com os usuários ficou mais difícil. O grande grupo que circulava entre as Ruas Helvétia e Dino Bueno e que antes recebia os pesquisadores de maneira amistosa, agora se encontrava disperso. O primeiro contato, que em dezembro de 2011 era feito rapidamente, agora demorava algumas horas. O momento de conversa com o usuário transformou-se em um momento de tensão. Os laços feitos, os acessos para que os trabalhadores pudessem ter contato com os usuários foram perdidos.

Quarta-feira (dia 11). Muitas das conversas que tivemos mudaram de tema. O que antes era uma conversa sobre a vida do usuário, a relação dele com a droga, com a família, com o trabalho, agora transformava-se em um relato das crueldades e violências ocorridas no dia anterior.

A região da Santa Ifigênia está igualmente perigosa, segundo os usuários. Seguranças particulares armados com porretes fazem o trabalho que era feito pela PM. Retiravam usuários que ficavam na calçada consumindo ou não drogas.

Quinta-feira (dia 12). Nas primeiras conversas notamos algo diferente. Usuários relataram que alguns conhecidos sumiram. Carros encostavam e recolhiam pessoas. Na Avenida Duque de Caxias pude presenciar o que deve ter acontecido à noite. Um carro encostou e quatro homens armados com pistolas desceram. Alguns momentos depois, mostraram o distintivo da Polícia Civil. Saíram sem levar ninguém. Mais tarde, em outra conversa, entendemos que usuários portando três, cinco, dez pedras de crack, eram mantidos presos como traficantes. Hoje é o dia que tivemos mais dificuldade em conversar com os usuários. Em uma abordagem na Avenida São João, percebi o quão perigoso estava se tornando o trabalho ao ser questionado sobre minha identidade de maneira muito agressiva. Desde o início da operação, hoje foi o dia com o clima mais sinistro.

Sexta-feira (dia 13). Hoje, li na internet e nos jornais que na noite de quinta-feira diminuíram as abordagens da PM. Mas uma outra notícia me chamou mais a atenção, de que uma mulher teria sido presa na zona leste com muitos quilos de crack, que seriam entregues na cracolândia. Ainda parece que está tudo muito confuso, cada dia sendo diferente do anterior. A impressão desta semana é que o difícil trabalho que foi realizado para entrar em contato com os usuários ficará ainda mais complicado.

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