Tombado o Teatro Oficina. Agora pelo Iphan

A decisão sobre o entorno foi adiada - construções nos terrenos vizinhos, onde Silvio Santos quer erguer shopping, porém, têm de passar pelo órgão

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

O prédio do Teatro Oficina, na Bela Vista, região central de São Paulo, ganhou ontem mais uma proteção, desta vez do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Após sete anos de análise técnica, o edifício - histórico espaço de experimentação do teatro nacional - foi tombado pela entidade. Agora, alterações no prédio ou construções em terrenos vizinhos terão de passar pela aprovação do órgão nacional.

Além do tombamento pelo Iphan, o Oficina já é protegido pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo (Condephaat) e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).

A delimitação da área de proteção no entorno do teatro, porém, foi adiada pelos conselheiros e será definida "em conjunto com governo do Estado e Prefeitura". Ainda assim, o tombamento já prevê garantia de "proteção visual" ao teatro - o que dificulta os planos do Grupo Silvio Santos, proprietário de terrenos vizinhos, que por duas vezes anunciou a construção de um shopping center na área. "O importante é que agora há outro agente para discutir alterações nas proximidades", disse o presidente do Iphan, Luiz Fernando Almeida. " Tivemos de rediscutir o entorno porque o teatro foi incluído no livro de tombo de Belas Artes, não apenas no de bens históricos. Por isso, os estudos serão aprofundados."

A primeira medida após o tombamento foi a aprovação de moções para o governo do Estado, proprietário do teatro desde 1984, e para a Prefeitura, recomendando execução do projeto original do espaço, que prevê um teatro de arena nos fundos.

Os planos do diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, responsável pelo Oficina desde a fundação, vão além: ele quer montar ali um centro de artes cênicas sem muro ou grades, emoldurado por uma grande área verde.

Histórico. Fundado em 1961 num casarão da Rua Jaceguai, o Teatro Oficina foi remodelado em 1986 com projeto da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, que o transformou em exemplo de arquitetura moderna - simbolizada pela parede interna envidraçada, de 150 metros quadrados. A fachada, típica do bairro, nunca mudou, resistindo até mesmo a um incêndio, em 1966.

O pedido de tombamento do Oficina tramitava desde 2003, quando Zé Celso solicitou ao então ministro da Cultura, Gilberto Gil, medida de proteção contra a anunciada construção do shopping nos arredores."Conselheiros ressaltaram também sua importância para o teatro nacional e o papel de resistência ao longo da ditadura militar", disse o presidente do Iphan.

Colônia Japonesa. Na reunião de ontem, o Iphan também tombou 13 imóveis históricos das duas primeiras colônias japonesas do Brasil, fundadas em Registro e Iguape, no Vale do Ribeira. São três antigas fábricas de chá, duas igrejas, cinco residências - todas de madeira e sem nenhum prego, fixadas apenas por encaixes nas tábuas -, além das "primeiras mudas de chá" plantadas numa fazenda em Registro.

Apesar do tombamento, pelo menos três casas estão em mau estado de conservação. "Nosso objetivo é conseguir realizar uma campanha para angariar fundos e restaurar esses bens, agora tombados", disse o presidente da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Registro, Kuniei Kaneko. Anteriormente, o único bem da imigração japonesa reconhecido como patrimônio cultural brasileiro era o Casarão do Chá, em Mogi das Cruzes, tombado em 1980.

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