Tombado o Teatro Oficina. Agora pelo Iphan

A decisão sobre o entorno foi adiada - construções nos terrenos vizinhos, onde Silvio Santos quer erguer shopping, porém, têm de passar pelo órgão

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h00

Isolado. Imóveis vizinhos ao prédio do teatro já começaram a ser demolidos há meses

 

  O prédio do Teatro Oficina, na Bela Vista, região central de São Paulo, ganhou ontem mais uma proteção, desta vez do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Após sete anos de análise técnica, o edifício - histórico espaço de experimentação do teatro nacional - foi tombado pela entidade. Agora, alterações no prédio ou construções em terrenos vizinhos terão de passar pela aprovação do órgão nacional.

Além do tombamento pelo Iphan, o Oficina já é protegido pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo (Condephaat) e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).

A delimitação da área de proteção no entorno do teatro, porém, foi adiada pelos conselheiros e será definida "em conjunto com governo do Estado e Prefeitura". Ainda assim, o tombamento já prevê garantia de "proteção visual" ao teatro - o que dificulta os planos do Grupo Silvio Santos, proprietário de terrenos vizinhos, que por duas vezes anunciou a construção de um shopping center na área. "O importante é que agora há outro agente para discutir alterações nas proximidades", disse o presidente do Iphan, Luiz Fernando Almeida. " Tivemos de rediscutir o entorno porque o teatro foi incluído no livro de tombo de Belas Artes, não apenas no de bens históricos. Por isso, os estudos serão aprofundados."

A primeira medida após o tombamento foi a aprovação de moções para o governo do Estado, proprietário do teatro desde 1984, e para a Prefeitura, recomendando execução do projeto original do espaço, que prevê um teatro de arena nos fundos.

Os planos do diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, responsável pelo Oficina desde a fundação, vão além: ele quer montar ali um centro de artes cênicas sem muro ou grades, emoldurado por uma grande área verde.

Histórico. Fundado em 1961 num casarão da Rua Jaceguai, o Teatro Oficina foi remodelado em 1986 com projeto da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, que o transformou em exemplo de arquitetura moderna - simbolizada pela parede interna envidraçada, de 150 metros quadrados. A fachada, típica do bairro, nunca mudou, resistindo até mesmo a um incêndio, em 1966.

O pedido de tombamento do Oficina tramitava desde 2003, quando Zé Celso solicitou ao então ministro da Cultura, Gilberto Gil, medida de proteção contra a anunciada construção do shopping nos arredores."Conselheiros ressaltaram também sua importância para o teatro nacional e o papel de resistência ao longo da ditadura militar", disse o presidente do Iphan.

Colônia Japonesa. Na reunião de ontem, o Iphan também tombou 13 imóveis históricos das duas primeiras colônias japonesas do Brasil, fundadas em Registro e Iguape, no Vale do Ribeira. São três antigas fábricas de chá, duas igrejas, cinco residências - todas de madeira e sem nenhum prego, fixadas apenas por encaixes nas tábuas -, além das "primeiras mudas de chá" plantadas numa fazenda em Registro.

Apesar do tombamento, pelo menos três casas estão em mau estado de conservação. "Nosso objetivo é conseguir realizar uma campanha para angariar fundos e restaurar esses bens, agora tombados", disse o presidente da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Registro, Kuniei Kaneko. Anteriormente, o único bem da imigração japonesa reconhecido como patrimônio cultural brasileiro era o Casarão do Chá, em Mogi das Cruzes, tombado em 1980.

TRÊS PERGUNTAS PARA...José Celso Martinez Corrêa,

Diretor teatral. responsável pelo Grupo Teatro Oficina

1. Que análise você faz do tombamento?

Foi um milagre. Diziam que o Iphan é conservador e que o tombamento não passaria, mas, apesar da demora, sabia que estavam errados.

2. E a área do entorno, ainda não definida?

É um detalhe, a ser resolvido nas próximas reuniões. O importante é que, agora, qualquer coisa tem de passar pelo Iphan.

3. Como construções próximas podem prejudicar?

Ao lado de bem tombado, os terrenos perdem valor. Aquilo pode ser desapropriado para o sonho de construir um centro cultural.

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