Todos perderam com homicídios e ação do Estado surtiu efeito

Episódios trágicos, como o massacre do Carandiru, desencadearam mudanças nas políticas de segurança

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2012 | 03h03

No auge dos homicídios, em 1999, José Idelvan, matador do Grajaú, autor de dezenas de assassinatos e de pelo menos três chacinas, explicava que pararia de matar se pudesse. "Mas não tem como. Se eu parar, aqueles que querem me pegar teriam vida fácil e eu morreria rapidinho", disse. Idelvan morreu em 2006, assassinado depois que outros cinco colegas foram queimados dentro de um carro.

A queda dos assassinatos ocorreu porque, depois que os homicídios se disseminaram e se popularizaram, todos se prejudicaram, incluindo os assassinos, que passaram a ser jurados de morte. Nos anos 1970 e 1980, os assassinos ainda tinham a ilusão de que seus crimes podiam exercer algum controle no território. Vinte cinco anos de mortes ensinaram que não era bem assim: a desordem tende só a aumentar.

Os homicídios e os assassinos, no entanto, não mudaram sozinhos. Dependeram de uma força externa, capaz de induzir potenciais homicidas a optar por soluções alternativas. Só o Estado tinha a capilaridade e a capacidade de agir com abrangência suficiente para reverter as taxas de homicídios em quase todas as cidades paulistas a partir de 2000.

As políticas mais importantes começaram a ser executadas nos anos 1990, provocadas por acontecimentos trágicos. Depois dessas ações, o mundo do crime nunca mais seria o mesmo.

O massacre do Carandiru, quando 111 presos morreram em 1992, foi um desses episódios transformadores.

Cinco meses depois, foi criada a Secretaria da Administração Penitenciária, que ganhou autonomia em relação à Secretaria da Segurança e ampliou as vagas no sistema. Entre 1988 e hoje, o crescimento de presos por 100 mil habitantes foi de 770%. Passou de 51 por 100 mil habitantes no Estado para 418 por 100 mil nos dias de hoje.

Paralelamente, o sucesso das medidas implantadas em Nova York, que pela primeira vez conseguiu reduzir homicídios em curto prazo, incentivou a mudança no patrulhamento dos policiais militares, que passaram a agir nos lugares com taxas maiores de homicídio. Um dos focos era retirar armas frias das ruas, aproveitando o rigor de novas leis contra o porte.

Organização. No mundo do crime, o impacto dessas políticas públicas levou a mudanças radicais no comportamento de seus integrantes. Como o homicídio prejudicava os criminosos - que estão interessados em ganhar dinheiro roubando e traficando -, as medidas induziram a escolhas diferentes.

O Primeiro Comando da Capital foi também uma das consequências das políticas públicas. Com o aumento de presos e a organização da facção, os debates nas "quebradas" também acabou ajudando a controlar os assassinatos a partir de 2006.

O círculo virtuoso entrou em ação. Assim como no período de ascensão, no qual um homicídio podia produzir outros homicídios, um assassinato a menos também provocava redução em escala.

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