Divulgação
Divulgação

'Todos os meus colegas morreram ao meu lado'

Médico que se recupera do Ebola diz que'não existe solução para a epidemia porque ela só mata africanos'

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2014 | 02h02

No último dia 22 de julho, o médico liberiano Melvin Korkor recebeu o que classifica de "a pior notícia" de sua vida. Um teste mostrava que ele havia sido contaminado pelo vírus do Ebola, que já matou quase mil pessoas e obrigou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a decretar, na sexta-feira, estado de emergência internacional.

Korkor foi um dos raros casos de sobreviventes e, em entrevista por telefone ao Estado, diz que a única explicação é que viveu um "milagre". Acostumado com um país em guerra, o médico conta que nunca se sentiu tão ameaçado como quando o resultado de seu exame de sangue chegou. Ele permanece em isolamento, mas comemora a cura. Korkor foi o único de seu hospital que sobreviveu.

O médico de Monróvia, porém, não deixa de atacar a comunidade internacional por ter abandonado a África por tanto tempo. "Se essa doença existisse nos Estados Unidos ou na Europa, amanhã haveria uma solução para ela. Há 40 anos todos sabem que existe o Ebola. Mas sabe qual o problema? É que está na África."

Como o senhor contraiu a

infecção?

Eu estava no meu hospital, em Monróvia, e vi uma mulher que chegava, trazida pela polícia. Ela havia escapado do isolamento de um outro hospital e estava fugindo. Mas ela estava com o Ebola e, desde o primeiro minuto, eu alertei a todos que deveríamos ter muito cuidado. Mas não adiantou. Nos dias seguintes, eu, outros médicos e enfermeiras ficamos com febre.

E qual foi o procedimento neste momento?

Fizemos testes imediatamente e descobrimos que seis de nós tínhamos contraído a doença. Fomos colocados logo em seguida em uma ala isolada do hospital. Foi a pior notícia que já recebi na minha vida.

O que o senhor sentia?

Uma febre alta que não cedia por nada. Tomava remédios e não havia nada que a fizesse baixar. Sentia também dores no corpo, dores na garganta e também no abdome. Por sorte, não tive sangramento, que é o que mais mostra que a doença está ganhando terreno.

O que passou pela cabeça do senhor quando se deu conta de que estava contaminado?

A primeira coisa que veio à minha mente era que, pela primeira vez, eu estava de fato entre a vida e a morte. Sabe, tivemos uma guerra na Libéria. Mas eu nunca tinha me sentido mais ameaçado do que naquele momento. Era pior do que saber que existe uma guerra. É uma guerra dentro de você. Eu tinha 10% de chance de sobreviver.

E por que o senhor acha que sobreviveu?

O primeiro motivo que ajudou foi ter sido diagnosticado rapidamente. Mas outro motivo é que eu pensei que teria de ser totalmente cooperativo para poder superar e ganhar a luta contra o vírus. O que eu fiz foi me alimentar muito para ajudar o organismo a reagir e ter imunidade. Também bebi 12 garrafas de água por dia. Mesmo assim, cheguei a ficar em estado grave.

Por quanto tempo o senhor ficou em estado grave?

Por quatro dias. Para complicar, eu ainda não conseguia dormir. Tinha na minha cabeça que eu precisava lutar. E, para completar, o que eu via onde eu estava era horrível. As pessoas morrendo à minha volta e a cada hora. Era desesperador. Das seis pessoas do meu hospital que contraíram a doença, eu fui o único que sobreviveu. Todos os meus colegas morreram ao meu lado. Eu e todos naquela sala sabíamos, quando eu saí, que um milagre tinha acontecido.

O senhor mudou depois de viver isso?

E quem não mudaria? Eu passei a rezar muito mais, a dar valor a Deus. Sou médico. Mas sei que eu vivo porque houve um milagre.

Na sexta-feira, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o Ebola emergência mundial. O que o senhor acha que isso vai mudar no combate à doença?

Isso deveria ter acontecido há meses. A verdade é que, se essa doença existisse nos Estados Unidos ou na Europa, amanhã haveria uma solução para ela. Há 40 anos todos sabem que existe o Ebola. Mas sabe qual o problema? É que esta doença está na África. Só africanos morrem dela. Se fosse no Ocidente, a medicina já teria uma solução. Vamos ser claros: só não existe solução para o Ebola porque ele só mata africanos. Olha o que está acontecendo nos Estados Unidos. Assim que dois americanos foram contaminados, já se fala em um remédio experimental.

Quais cuidados o senhor está tomando agora?

Estou ainda na fase de quarentena. Estou isolado, mas me sinto bem e quero voltar a trabalhar. Por sorte, minha família também está bem. Eles também ficaram de quarentena e, a partir de segunda-feira (amanhã), já estarão liberados. É um grande alívio.

Qual é a maior dificuldade hoje para os hospitais da Libéria ao tratar dos doentes do Ebola?

Na verdade, falta o básico. Não estamos esperando um remédio. O que estamos lutando hoje ainda é para que os hospitais tenham comida. Só isso já salvaria muitas vidas. Em muitos hospitais, os pacientes comem apenas uma vez por dia. Não há organismo que resista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.