José Patrício/AE
José Patrício/AE

Todos os filhos da Dona Augusta

Em formato de T, a esquina dos notívagos recebe skatistas, playboys, prostitutas, roqueiros, botequeiros. Quando a madrugada termina, quase todos foram embora. Menos uma pessoa

Carolina Dall olio, do Jornal da Tarde,

22 Janeiro 2010 | 00h01

Ali em pé, lotando as calçadas, eles parecem aguardar um sinal que os autorize a andar. O semáforo da Rua Fernando de Albuquerque com Augusta fica vermelho e os carros abrem espaço para quem quiser seguir. Curioso é que quase ninguém atravessa. Só os indecisos, ou talvez aqueles que ainda não chegaram onde queriam. A maioria das pessoas já está exatamente no lugar onde gostaria de estar nesta sexta-feira quente de verão. É madrugada, e a ordem geral é se divertir.

 

Embora a esquina em forma de T não tenha nada de mais, ela concentra quase tudo o que a noite paulistana oferece. Dois bares, o Ibotirama e o Cuca Ideal, ocupam calçadas opostas à da Fernando. Ao lado do Ibotirama, a casa noturna Tapas abriga aqueles que, além de beber, querem dançar. Quase em frente à balada, bem abaixo de uma academia, a pizzaria e bar Vitrine vira refúgio dos botequeiros que se recusam a voltar para casa à 1 hora da manhã, quando Ibotirama e Cuca Ideal são obrigados a fechar.

 

Um detalhe essencial confere ao lugar sua verdadeira identidade: os diversos perfis de quem frequenta o espaço. Aos 16 anos, Wellinton está descobrindo a região ao mesmo tempo em que molda sua personalidade, seus gostos. Por enquanto, prefere o skate às meninas. Em frente ao Vitrine, passa a noite jogando conversa fora com os amigos enquanto bebe uma mistura de Fanta laranja e pinga. Sem gelo.

 

Thaís vai para Augusta para fugir dos olhares preconceituosos. Apesar das roupas curtas, do alargador que abriu um buraco enorme em sua orelha direita e do cabelo avermelhado, o que ela deseja mesmo é passar despercebida. A estudante de Moda de 20 anos mora em Goiânia, mas vem a São Paulo todo mês - e o Cuca Ideal é o seu destino certo. "Na minha cidade é difícil ser lésbica, todo mundo fica encarando. Aqui ninguém se importa nem repara."

 

Para a DJ Michele, que frequenta e trabalha na região há cinco dos seus 25 anos, aquela esquina já teve dias melhores. "O agito aqui continua bom, mas o ruim é que agora tudo acaba mais cedo, ninguém pode fumar, as pessoas estão mais caretas", reclama a loira, que não bebe, não fuma, não se droga, mas gosta de voltar para casa só quando o dia amanhece.

 

Rubens, de 28 anos, também revela saudades da Augusta do passado. Bebendo ali no Ibotirama, admite que a noite acabaria melhor se ele fosse para casa com uma mulher a tiracolo. Mas está cada vez mais difícil se dar bem por ali, ele diz. "Tem muita lésbica e quase nenhuma puta", justifica, com pesar. Kelly, uma das únicas prostitutas que ainda faz ponto naquela esquina, se confunde aos outros jovens que, ao contrário dela, não estão ali para trabalhar. Quando eles forem embora, a noite da moça renderá mais.

 

A porta de um bar se fecha, a do outro também, as pessoas vão embora pouco a pouco até quase não sobrar mais ninguém. Quando o sol aparece, só Kelly continua na calçada.

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