Todo mundo manda um pouco no trânsito de SP

Moradores improvisam cones, cavaletes e até mesas nas vias para reservar vagas. Ruas também são pintadas irregularmente

CAIO DO VALLE / JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h03

Na cidade de São Paulo, parece que qualquer um pode mandar um pouquinho nas regras do trânsito. Como? Pintando no asfalto linhas para delimitar a saída da garagem, por exemplo. Ou instalando cones que "seguram" a vaga. E até criando suas próprias placas de advertência viária. Pela lei, tudo isso só deve ser feito ou autorizado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), mas a realidade não é bem assim.

A reportagem percorreu 38 quilômetros de vias nesta semana e encontrou dezenas de situações irregulares envolvendo sinalização. Todas praticadas por moradores ou comerciantes, sem aval da Prefeitura.

O bloqueio de vagas em pontos onde não há Zona Azul é a situação mais comum.

Na Rua Doutor Albuquerque Lins, na região central, já existe até um "esquema" para reservar vagas. Toda vez que um morador tem de deixar o carro na rua, o condomínio aciona, por rádio, o vigia da redondeza. Ele desloca um cavalete de madeira da calçada para a via e pronto: "É só por uns cinco minutos", disse o vigilante, pago por três prédios situados perto da esquina com a Alameda Barros.

Perto dali, o residencial onde trabalha o zelador Espedito Melo, de 37 anos, também usa esse recurso. Um cavalete amarelo é colocado na rua para auxiliar os condôminos.

"Usamos quando há mudanças. Sem ele, não tem como dar espaço para o caminhão", disse. Em casos assim, a CET autoriza a ocupação provisória da rua. Porém, na quarta-feira, o obstáculo estava no asfalto sem haver qualquer mudança.

O empresário Wilson de Godoy, de 66 anos, dirige diariamente pela capital e não se conforma com esses recursos privados. "Todos pagam impostos, não deveria haver privilégio", afirmou.

Para o presidente da Comissão de Trânsito da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), Maurício Januzzi, a falta de vigilância adequada da CET é um dos fatores que levam a tais práticas. "Outra lacuna é a da lei, que não pune."

A lentidão da fiscalização afeta diretamente os moradores. Na frente de um escritório de advocacia na Rua Quirino dos Santos, na Barra Funda, zona oeste, o que se vê na via são três cones. Eles estão ali para reforçar um direito do imóvel: o respeito à guia rebaixada. Quem garante isso é o auxiliar administrativo Antonio de Souza, de 38 anos, funcionário do local. "Antes os carros paravam, chamávamos a CET para rebocar, mas demorava." Souza cobra rigor. "Senão, teremos de continuar fazendo papel de órgão de trânsito."

Intervenções. A reportagem encontrou cones, bloco de concreto, caixas de tinta com cimento e até duas mesas sendo usadas para reserva de vagas. O engenheiro Horácio Augusto Figueira, mestre em Transportes pela Universidade de São Paulo (USP), explica que é perigoso pôr qualquer equipamento no meio pista. "O objeto muitas vezes não é visível, ou seja, não é adequado para ficar ali."

Na Avenida Sumaré, em Perdizes, zona oeste, outro flagrante. O dono de um imóvel decidiu pintar um grande zebrado amarelo na rua para indicar a garagem. Esse tipo de intervenção é irregular. Toda pintura asfáltica só pode ser feita ou permitida pela Prefeitura. A reportagem contou 22 imóveis que pintaram o asfalto de amarelo. "Às vezes, elas cobrem a sinalização original", diz Figueira. Isso pode levar à confusão no trânsito.

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