Tiro de borracha vira 1º BO de tortura

Moradora da cracolândia há quatro meses, garota de 17 anos afirma ter sido atingida propositalmente na boca por policial

ARTUR RODRIGUES, WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2012 | 03h02

Desde que começou a viver na cracolândia, há quatro meses, é a primeira vez que B., de 17 anos, fica sem usar crack. Ela não parou porque quis, mas por causa do ferimento na boca, que torna quase impossível a tarefa de fumar o cachimbo. O machucado, segundo ela, foi causado por um tiro de borracha dado propositalmente por um policial militar que atua na operação da cracolândia. É o primeiro caso de tortura registrado desde o início da ação na área.

A jovem conta que na sexta-feira estava sentada na calçada na Rua Dino Bueno, quando policiais militares mandaram que ela levantasse. "Eu não saí da rua, o PM atirou." Antes do disparo, o policial teria mandado ainda que ela abrisse a boca. Na tarde de ontem, a jovem tinha bastante dificuldade para falar. Apesar de ter sido atendida em um posto de saúde e receber assistência do grupo religioso Cristolândia, ela reclama da dor causada pelo ferimento. A situação era agravada ainda pelos sintomas de abstinência. "Não estamos mais conseguindo achar drogas", relata. B. diz morar em Diadema, na Grande São Paulo, mas há muito tempo não tem contato com a família. "Minha mãe não sabe onde estou."

Além de tortura, o caso foi registrado como abuso de autoridade no 1.º DP (Sé) - o segundo do tipo desde que a operação começou. Em nota, a PM informou que foi usada munição porque usuários de drogas bloqueavam o trânsito. "Houve a necessidade de utilização da munição de elastômero", afirma o comunicado. A PM também convidou a jovem a comparecer ao Comando de Policiamento 1 para registrar a ocorrência na operação.

A Defensoria Pública está na cracolândia registrando queixas sobre violações de direitos humanos. O órgão recebeu relatos de agressões, atropelamentos e prisões forjadas. Entre as denúncias está a de uma mulher que teria sido obrigada a ficar nua. "É possível conciliar segurança pública com respeito aos direitos humanos. Vamos fazer relatos diários de eventuais desvios", afirma o defensor Carlos Weis.

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