Fernando Gabeira
Fernando Gabeira

''Tinha bala para matar quase toda a escola''

Repórter multimídia do 'Estado' consegue chegar à cena do massacre,[br]onde sobressaem as marcas de sangue e o silêncio dos peritos trabalhando

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2011 | 00h00

Do jeito que as coisas aconteceram, era impossível evitá-las. Um ex-aluno da Escola Tasso da Silveira entrou pela porta da frente, procurou a sala de leitura. Perguntaram a ele se vinha para a palestra. A escola estava comemorando 40 anos e era comum receber ex-alunos para palestras. O que não era comum na história? Wellington Menezes de Oliveira tinha deixado crescer uma barba e vestia-se de forma estranha, com um sobretudo. Todo aquele aparato no calor deveria parecer incômodo aos observadores.

 

Veja mais:

 som Ouça Fernando Gabeira falando sobre o ataque para a rádio Estadão ESPN   

A irmã adotiva, Rosilene, disse que ultimamente ele andava estranho, lendo coisas na internet. Tinha se interessado pelo Islamismo, mas não há indícios de que grupos islâmicos tenham se interessado por ele. No bolso, tinha uma carta suicida, afirmando, entre outras coisas, que nenhum impuro poderia tocá-lo.

Na rua, alguns moradores de Realengo estavam perplexos. Lembram que Wellington foi motoboy em Realengo. Afirmaram também que a escola merecia ter um segurança, pois, no passado, atiradores em um carro em movimento alvejaram o prédio, ali mesmo onde agora aparecem três buracos de bala, resultado do tiroteio matinal.

Wellington deve ter lido a frase que está inscrita num grande quadro, ao lado da sala dos professores: "A confiança em si próprio é o primeiro segredo do êxito, Ralph Waldo Emerson."

O horror é indescritível. Um policial que foi ao IML disse que as crianças foram alvejadas na testa, de cima para baixo. Ele suspeita que o assassino as enfileirou e pediu que ajoelhassem para facilitar a tarefa. Ele tinha bala para matar quase toda a escola.

Dois alunos baleados conseguiram escapar pelo portão da frente. Posso imaginar o desespero - as proximidades do cadeado estão cheias de marcas de sangue. Na rua, comunicaram-se com a polícia e um sargento foi à escola, atirou na perna de Wellington, que depois se matou.

Isso é tudo. Mas é quase nada para quem quer entender. Na carta, Wellington não fala que foi contaminado pelo HIV. Havia alguma especulação por ter matado dez meninas e apenas um menino. Um policial me alertou para a possibilidade de coincidência, pois as meninas costumam ficar juntas.

Tudo isso é difícil apurar no mesmo dia do crime, sobretudo porque a perícia ainda estava sendo feita. As marcas de sangue na escada, na porta de saída, nas ásperas paredes, e o silêncio dos peritos trabalhando nos andares superiores foram as impressões mais fortes da escola. O pátio onde se ouviram os gritos tinha apenas dois policiais. No pé da escada, alguns sacos de plástico vazios.

Na saída, quando o guarda municipal abriu a porta, detive-me sobre as marcas de sangue pensando como poderiam ter parado ali. Antes de alcançar a liberdade e chamar por socorro, os meninos feridos no rosto devem ter encostado a cabeça na parede, para esquecer o horror ou ganhar forças para correr para longe.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.