Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Times de várzea loteiam clubes da Prefeitura e cobram por uso de campo

Entidades esportivas da periferia fazem shows com entrada paga, mantêm bares e decidem quem pode ou não entrar em áreas públicas

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

Criados na década de 1960 como opção de lazer gratuito para jovens da periferia de São Paulo, clubes da comunidade (CDCs) que deviam ser supervisionados pela Secretaria Municipal de Esportes são controlados hoje por "donos" de times de futebol amador que cobram pelo uso do espaço. Em terreno da Prefeitura, patronos da várzea alugam o campo por R$ 100 a hora, realizam shows particulares, vendem bebida alcoólica e determinam quem pode ou não entrar.

O domínio que os times de várzea exercem nos clubes municipais pode ser visto no Jardim Iporanga, área cercada por favelas na zona sul. O espaço do CDC Caldeirão do Iporanga, inaugurado em 1969 pela associação de moradores do bairro e repassado à Prefeitura na década de 1980, é comandado por 17 times "que mandam no campo", como define o site do clube - apesar de a placa da Prefeitura estar na entrada, com o selo do programa "Clube-Escola".

Os times também lucram com o espaço público. No dia 21, os "donos" do Iporanga cercaram o gramado do clube com catracas e cobraram R$ 20 de 11 mil pessoas que assistiram ao show do cantor Belo. A Coca-Cola com vodka era vendida por R$ 5 no Cesar"s Bar Night, que funciona dentro do espaço municipal e é mantido pelos times Bola + 1 Futebol Clube e Grêmio Recreativo Os Mal Falados.

No campo do Caldeirão do Iporanga não existe nenhum trabalho supervisionado pela Secretaria Municipal de Esportes. Garotos pré-adolescentes do bairro precisam pedir autorização para os donos dos times quando querem bater uma bola. Vizinhos relatam que há uso de drogas no clube aos sábados à noite, quando os times costumam fazer festas de funk no espaço.

Esse domínio dos times sobre os CDCs é irregular. Em abril de 2007, o prefeito Gilberto Kassab (sem partido) baixou o Decreto 48.267 determinando que a pasta de Esportes fiscalize e supervisione os 282 clubes da comunidade da capital. A norma diz que as atividades do programa Clube-Escola, como aulas de tênis e ioga para terceira idade, devem ser feitas nos CDCs. Quatro anos depois, a regra não é cumprida. A Secretaria de Esportes afirma que as entidades têm de prestar contas à pasta sobre as atividades desenvolvidas nos clubes (leia texto ao lado).

A maior parte dos clubes se resume a um campo de futebol com grama sintética, refletores, bar, mesas de sinuca e um caseiro que faz o trabalho de "gerente". É assim no CDC Cidade Dutra, na zona sul. Quem manda ali são os donos do Acadêmicos Futebol Clube, time da várzea. Não há atividade esportiva para jovens do bairro no local, que é a sede dos jogos do Acadêmicos. Também é assim no Grajaú, onde o Sociedade Águia Negra controla o Clube da Comunidade Jardim Eliana. A equipe cobra R$ 100 por hora pelo uso do campo.

"A Prefeitura colocou grama sintética e refletores no início do ano, isso ajudou a trazer equipes para jogar aqui à noite", conta José Joaquim Rodrigues, de 54 anos, caseiro do CDC, pago pelo time de várzea. No gramado, a faixa com a pintura "Prefeitura de São Paulo" fica ao lado de outra com a inscrição "Ninho da Águia". Rodrigues chama o campo de "nosso estádio". O clube tem bar com mesas de sinuca e uma arquibancada improvisada em um barranco. "São mais de dez times que alugam o campo todos os dias", diz o caseiro.

Rodrigues admite que a Prefeitura não fiscaliza as atividades da Sociedade Águia Negra. É também o que diz o presidente do CDC Tancredo Neves, Hélio Rosa Viana. "Recebemos uma reforma graças a uma emenda do vereador Goulart (Antonio Goulart, PMDB). Mas aqui quem faz a gestão são os times Planalto Futsal e Associação Treme Terra e a ONG Semear", diz Viana. O clube tem quadra de futebol de salão coberta e vestiários, além de várias mesas de sinuca e bar.

Alguns clubes da comunidade também acabaram se transformando em escolas de futebol e chegam a cobrar mensalidades de até R$ 80 de garotos que treinam três vezes por semana em seus campos.

Conselho. Para aumentar a participação dos moradores na gestão dos clubes da comunidade, o prefeito Gilberto Kassab baixou um decreto em 7 de julho deste ano no qual determinou que os clubes da comunidade deveriam formar o "Conselho do Usuário", com frequentadores e representantes da Secretaria Municipal de Esportes. Até agora, no entanto, nenhum dos 282 CDCs tem o novo órgão.

PARA LEMBRAR

Por 20 anos, Parque do Povo, no Itaim-Bibi, na zona sul, foi administrado irregularmente por 11 times de futebol amador. Só a partir de 2007 é que a Prefeitura de São Paulo começou a retirar os invasores, que tinham até um clube particular. No local, também viviam 85 famílias. O terreno pertence à Caixa Econômica Federal e foi cedido à Prefeitura. Em 2008, recebeu melhorias e foi reaberto ao público. Hoje o parque tem 112 mil m² de área à disposição dos visitantes, com quadras poliesportivas, trilhas e gramado. O horário de funcionamento é das 7h às 22h.

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