Daniel Teixeira/Estadão - 29/04/2022
Daniel Teixeira/Estadão - 29/04/2022

TikTok e pandemia impulsionam nova onda de mulheres patinadoras em SP; veja as manobras

Vídeos e restrições ao lazer na quarentena fizeram com que jovens e mais velhas redescobrissem o prazer das rodinhas; Anhangabaú, parques e rinques são pontos de encontro

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2022 | 05h00

Cair faz parte até conseguir se sustentar sobre as quatro rodinhas – e depois de conseguir também. Para dançar em cima dos patins, somam-se alguns tombos, suor e outras tantas risadas. Quem associa a patinação só a meninos velozes em manobras radicais ainda não conhece a nova geração de mulheres paulistanas que tirou a poeira dos velhos pares guardados no armário ou decidiu se aventurar pela primeira vez.

Elas dão cara nova ao movimento roller dance, febre dos anos 1980 nos Estados Unidos. As restrições ao lazer na pandemia e o sucesso de vídeos de danças sobre rodas nas redes sociais impulsionam a nova-velha moda. Os patins preferidos para criar coreografias são os do modelo quad, aqueles que parecem botas retrô com duas rodinhas na frente e duas atrás.

“Comecei a andar agora, com esse modelo quad. Venho aqui para dançar”, contava a gerente de relacionamento Sabrina Dias, de 40 anos, em meio a uma pista de patins com luzes e música no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo. Em uma noite fria de sexta-feira, o DJ engatou Billie Jean, de Michael Jackson, a euforia foi geral sob o Viaduto do Chá.

Palmas, pernas que se cruzam, uma profusão de rodinhas: todos parecem saber como se divertir – até quem ainda não domina as coreografias. Para Sabrina, a boa surpresa foi encontrar mulheres acima dos 40 na cena do patins. “Vamos aos poucos fazendo amizade e essas pessoas dão um toque aqui, outro ali. Não quero parar”, diz ela, que ainda assiste mais vídeos do que publica, mas já planeja exibir seus progressos no esporte.

O Vale, reaberto em dezembro, é um dos polos de patins em São Paulo – a reforma tornou o piso liso e propício para o esporte. Toda sexta à noite, parte da área é fechada com gradis só para a atividade. Instrutoras, como Vitória Albanese, de 24 anos, e Vic Arantes, de 26, ajudam quem arrisca os primeiros passos ou pulinhos. As crianças, claro, marcam presença, assim como adultos enferrujados e até idosos.

Conseguir fazer a manobra de crazy legs, em que as pernas se alternam sem que o patinador saia do lugar, é como um troféu. Publicações virais no Instagram e no TikTok, como os vídeos hipnotizantes da modelo senegalesa Oumi Janta, inspiram. No fim da balada, Vitória puxa um trenzinho de patinadores, enquanto o DJ aumenta o som. Uma menina que não tem nem 5 anos entra na roda, com os patins maiores do que as pernas. “É para curtir a saideira”, anunciam.

“Na pandemia, com as academias e as baladas fechadas, o pessoal foi procurar outras opções. Patins e bicicleta vieram com tudo”, diz a customer service Juliana Jerônimo, de 29 anos, que com outras duas mulheres e uma menina de 8 formou um coletivo de patinação: as Pakitas. Juntas, as “rainhas do patins”, como são conhecidas por aí, frequentam espaços como o Anhangabaú, praças e parques.

Além da diversão, elas passam a mensagem: a de que todo lugar pode (e deve) ser ocupado pelas mulheres. “É bom se sentir livre à noite, em São Paulo, no centro, poder expressar a sua parte artística em um lugar que é público”, diz Juliana. “Virou uma corrente de mulheres patinadoras urbanas”, resume a modelo Miriã Castimião, de 36 anos, outra Pakita, que passou a patinar junto com a filha Mirielly Vitória.

Os espaços públicos concentram mais gente, mas os rinques de patinação também notam alta na procura. “Antes, quem buscava os patins quad eram crianças ou pessoas muito mais velhas, que tinham patinado na década de 1970 e 1980. Com os vídeos da Oumi Janta, o público mais jovem, de mulheres, foi atrás dos patins para tentar fazer igual”, diz Luiz Morcegão, dono da Roller Jam, rinque de patinação com duas unidades em São Paulo: em Moema (zona sul) e na Mooca (leste).

O rinque da Mooca, diz, teve aumento de cerca de 20% do público em relação a antes da pandemia. Em Moema, na unidade inaugurada pouco antes da covid-19, o movimento cresce a cada fim de semana – puxado, principalmente, pela turma das danças. Há aulas específicas para quem quer aprender os passos nos patins.

De olho no boom de patinação, outro espaço foi aberto no fim de 2021 na Liberdade (região central). O nome já indica o foco: Roller Dance. Mulheres marcam presença, mas rapazes não ficam de fora. “Vão muitos casais de namorados que arriscam uma dancinha”, diz Luciano Loiola, administrador da Roller Dance.

Em clima de discoteca, uma festa sobre rodas na Roller Dance retomou clássicos de Cyndi Lauper, Madonna e Michael Jackson, mas Loiola garante que a playlist também traz sucessos contemporâneos e os frequentadores podem pedir seus hits preferidos. “Toca de tudo.” A demanda fez a casa abrir turmas para aulas pela manhã e à tarde.

O sucesso é igual no exterior. Nos Estados Unidos, patins retrô ganharam força com a pandemia. Um rinque de patinação sobre rodas foi inaugurado este mês no Rockefeller Center, em Nova York, após a temporada de patins sobre gelo – o que não ocorria desde 1940. Séries, filmes e propagandas também ajudam a encorajar os neófitos.

Para as novas patinadoras, funciona como hobby e atividade física. “Todos os instintos de atenção, desenvolvimento motor são bem aguçados”, explica Guilherme Montan, diretor executivo da Pro 360 Patinação, centro de treinamento em Santo André, no ABC paulista. “A concentração tem de estar à flor da pele”, completa.

Quem patina também cita benefícios emocionais. “Estava muito triste, senti aquela dose de endorfina e fiquei viciada. Hoje só penso nisso”, diz a tosadora Lucienne Alcântara, de 25 anos, que começou a patinar na pandemia, após uma decepção amorosa. Além do Anhangabaú, Lucienne frequenta outros points paulistanos, como o Minhocão (região central) e o Parque do Ibirapuera (zona sul).

No Villa-Lobos (zona oeste), a alta no movimento de patinadores é perceptível. “Muita gente fala que quer aprender para dançar”, diz Eli Paulino, de 55 anos, um dos fundadores do Sampa Rollers, projeto de apoio a iniciantes. “Mulheres já casadas, aposentadas, querem recuperar o tempo perdido, fazer o que têm vontade e viver a vida independentemente de qualquer rótulo.”

Por lá, além do modelo retrô, são comuns patins inline (com rodas dispostas em linha). Pequenos cones são postos no chão, a uma mesma distância, e o desafio é passar por eles fazendo curvas. Quando manobras de ziguezague dão certo, os vídeos logo chegam às redes sociais – e incentivam mais gente a calçar botas rolantes e sair da tela para as ruas.

Dicas para aprender a andar de patins

  1.  Antes de comprar um par de patins, é preciso conhecer os diferentes tipos de botas e rodinhas. Há modelos mais apropriados para manobras radicais, andar na rua ou dançar.
  2. Não há idade para aprender. As botas mais rígidas são as melhores opções para quem está iniciando na patinação porque dão mais segurança aos pés.
  3. Vídeos de patinadores nas redes sociais podem servir de inspiração antes de comprar um par de patins, mas não devem ser o único parâmetro. O ideal é experimentar o modelo para checar se ele se encaixa com o seu pé.
  4. Cair é comum, principalmente para quem está começando. O que não pode é se machucar. Não dispense equipamentos de proteção, como capacete e joelheiras.
  5. Para começar, procure áreas planas e, de preferência, com asfalto liso. Parques e espaços como o Parque Villa-Lobos e o Vale do Anhangabaú são boas opções.
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