Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Testemunhas protegidas que acusam policiais de participar de chacina de Osasco faltam a júri

Julgamento começou nesta terça-feira, 27, com depoimento de policiais que investigaram o caso

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2018 | 19h00
Atualizado 28 Fevereiro 2018 | 00h43

SÃO PAULO - Testemunhas protegidas que acusaram policiais de participar da maior chacina da história de São Paulo não apareceram no Fórum Criminal de Osasco, na Grande São Paulo, onde deveriam participar do júri popular do PM Victor Cristilder, suspeito de participar dos crimes. Os ataques terminaram com 17 mortos e 7 feridos em Osasco e Barueri, em agosto de 2015.

O júri teve início nesta terça-feira, 27. Um dos que faltou no Tribunal, a testemunha "Beta" reconheceu Cristilder como um dos responsáveis por matar a tiros Michael do Amaral Ribeiro, de 27 anos, em Carapicuíba, em uma espécie de "pré-chacina", que aconteceu uma semana antes. Após exame de balística, investigadores constataram que a munição usada neste crime também foi encontrada na chacina de Osasco. 

Testemunha chave na condenação de PM envolvido na chacina de Osasco dirá que mentiu

"Não sei nem se está viva", afirmou a defensora pública Maíra Coaraci Diniz, que atua como assistente de acusação no júri, ao falar da ausência de "Beta" no plenário. O comentário despertou um bate-boca com o advogado de defesa João Carlos Campanini, representante de Cristilder. "Você sabe o que acontece com quem denuncia policiais em Osasco", disse Maíra. O defensor respondeu: "Você está viajando".

Segundo registro de boletim de ocorrência e depoimentos prestados posteriormente, "Beta" estava com Ribeiro no momento em que ele foi assassinado. Aos policiais, ele narrou que os atiradores desceram de um Honda Civic escuro e, sem dizer palavra, atiraram na vítima. A testemunha também informou ter visto o PM jogar o corpo em um córrego.

Durante as investigações da chacina, "Beta" apontou Cristilder como o autor do homicídio ao fazer o reconhecimento fotográfico, no DHPP, e presencial, na Corregedoria da PM. Aos investigadores, disse, ainda, que conhecia o acusado de vista e que a sua alcunha era "Boy".

Por causa da sua ausência, os depoimentos de "Beta" só foram expostos aos jurados por meio do relato de policiais que investigaram o caso e de leitura de peças do processo. Entre as informações citadas no plenário, havia a de que Cristilder teria sido visto na tarde da chacina dentro de um Sandero prata, o mesmo carro que mais tarde seria usado nos ataques. O veículo nunca foi localizado.

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Por sua vez, a defesa de Cristilder explorou informações fornecidas por "Beta" que acabaram não sendo confirmadas na investigação - uma estratégia para levantar suspeitas sobre a veracidade do que a testemunha afirmou à polícia. O advogado também destacou que "Beta" teria informado a residência e outro carro de Cristilder que, na verdade, correspondiam a outro PM, também apelidado de "Boy", segundo as investigações.

Em outro momento, Campanini mostrou aos jurados uma imagem desse PM e questionou se não havia semelhanças físicas entre ele e Cristilder. "Não tenho dúvidas de que a testemunha confundiu" ,disse o advogado.

Outra testemunha bastante aguardada, a "Gama", também faltou no júri. Ela é a principal prova contra o PM Thiago Heinklain, julgado em setembro e condenado a mais de 140 anos de prisão, e foi responsável por denunciá-lo durante a fase de investigação.

Após a sentença, "Gama" protocolou uma carta na Corregedoria da PM afirmando que mentiu na denúncia. Ele ainda gravou um vídeo desmentindo seu primeiro depoimento, mas não compareceu para esclarecer a nova versão no fórum. "Uma coisa é mentir para câmera no meio de amigos, outra é na cara de uma juíza", comentou o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira.

Júri. Além da ausência de testemunhas, o primeiro dia do julgamento foi marcado por tensões entre as partes e tentativas da defesa de desacreditar as investigações da chacina. O Conselho de Sentença, que decidirá se Cristilder é culpado ou não, foi formado por quatro homens e três mulheres.

Sentando no banco dos réus, Cristilder - de camiseta salmão, calça jeans e tênis preto - manteve os ouvidos atentos e os olhos concentrados em um caderno, onde fazia anotações com canetas vermelha e azul. Quando discordava da fala de uma testemunha, balançava a cabeça em sinal de negativa. Em vários momentos, chamou seu advogado de defesa para fazer comentários no seu ouvido ou sugerir perguntas. 

"Para evitar constrangimento, gostaria de avisar às partes para não pedir que o réu ou as testemunhas olhem para os jurados", disse a juíza Élia Kinosita Bulman, responsável por presidir o júri, antes mesmo do primeiro depoimento. O recurso de virar o depoente havia sido usado no júri de setembro por advogados de defesa e o Conselho de Sentença da época reclamou, argumentando se sentir intimidado.

Manteve-se sereno ao longo do dia e não chorou em nenhum momento - ao contrário do que aconteceu com outros réus durante o júri anterior. Evitando criar constrangimentos, Cristilder fez uma sugestão à juíza quando seu advogado pediu para ele se levantar, para que os jurados pudessem compará-lo a uma foto do outro PM que também chamado de "Boy". "Excelência, eu posso fechar os olhos", disse o réu.

Foram ouvidos o delegado Andreas Schiffman, do setor de Homicídios de Carapicuíba, o capitão Rodrigo Elias, da Corregedoria da PM, e o delegado José Mário de Lara, do DHPP, que participaram das investigações. "A gente não queria um bode expiatório, mas o verdadeiro culpado", afirmou Elias.

Durante o depoimento do PM da Corregedoria, houve uma discussão entre a juíza e o advogado de defesa, após Campanini dar a entender que a magistrada estaria interferindo em benefício da acusação. "Vou intervir no momento que achar necessário", disse Élia, que afirmou que o defensor estaria "induzindo ou intimidando" a testemunha.

A última testemunha ouvida foi o sobrevivente Amauri José Custódio, baleado no rosto enquanto dormia em uma mesa no Bar do Juvenal, em Osasco, principal palco da chacina, com oito mortes. "Eu estava muito cansado, cochilei e não me lembro de mais nada", contou. "Acordei do coma 12 dias depois, passei 75 dias no hospital."

Custódio chorou ao falar das sequelas do crime. "Eu não tinha problema de saúde, hoje estou 50%... Tenho falta de ar, dificuldade para comer e dor de cabeça." 

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