Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Tesouros do mar são vendidos na internet

Sites nacionais e estrangeiros oferecem, sem conhecimento da Marinha, objetos retirados de naufrágios ocorridos na costa brasileira

Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2010 | 00h00

O patrimônio subaquático brasileiro está ameaçado. Sites nacionais e estrangeiros oferecem objetos retirados de naufrágios ocorridos na costa brasileira sem que a Marinha tenha conhecimento nem mesmo do local em que cada navio afundou. São peças como uma garrafa "de 110 anos", retirada do mar de Ilhabela, no litoral norte paulista, oferecida em um site por R$ 280.

Os destinos desses suvenires podem ser ainda leilões e estantes de caçadores de tesouros. Do aventureiro ao grande empresário, muitos investem dinheiro e tempo para encontrar no fundo do mar metais preciosos ou objetos valiosos disputados por colecionadores no mercado internacional.

Segundo a Diretoria de Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 1.320 naufrágios de interesse histórico ocorreram na costa brasileira desde o século 16. Um exemplo é o Galeão Sacramento, que naufragou no litoral baiano em 1668 e foi um dos mais explorados. Por US$ 280, um site vendeu em outubro uma moeda de 500 réis, de 1663, que estava no navio. Em outro site americano, especializado em artefatos e moedas de tesouros de navios naufragados, é possível encontrar lotes de moedas da mesma embarcação. A venda nem sempre é ilegal, mas nem todas as peças têm comprovante do naufrágio de origem ou da autorização para sua retirada.

"Em sites, geralmente você acha peças de menor valor monetário, como escotilhas, moedas, garrafas. O material mais caro é vendido em casas de leilão ou no câmbio negro para colecionadores de artefatos náuticos, principalmente do exterior", explica o instrutor de mergulho Maurício Carvalho, que pesquisa história dos naufrágios há 25 anos. Ele conta que o custo para extrair essas peças é alto, mas a lucratividade dos exploradores quando se tem esse tipo de espoliação é grande e compensa os gastos.

Fiscalização. O pesquisador Marcello de Ferrari, que também estuda naufrágios, afirma que, em alguns antiquários de Salvador, é possível encontrar peças retiradas de naufrágios, nem todas retiradas do mar legalmente. "Ninguém vê isso, ninguém fiscaliza. Isso é patrimônio sendo vendido abertamente e duvido que alguém chegue lá cobrando documento."

O almirante Armando Bittencourt, diretor do patrimônio histórico e documentação da Marinha, afirma que a maior dificuldade para proteger as riquezas submersas são os mais de 8 mil quilômetros de costa brasileira, "onde há centenas de sítios arqueológicos formados de naufrágios". Segundo ele, a falta de informações precisas sobre os locais onde as embarcações afundaram dificulta o controle da Marinha, que tem 29 navios-patrulha distribuídos pelos rios e pelo Atlântico.

Para autorizar pesquisas ou explorações, a Marinha exige projeto assinado por um arqueólogo. As atividades estão sujeitas à fiscalização do Distrito Naval, mas a presença do arqueólogo durante as intervenções não é obrigatória. Para comercializar legalmente objetos provenientes de naufrágios, é preciso comprovar que foram retirados com essa autorização.

Para a procuradora da República Inês Virgínia Soares, não há proteção mais efetiva do patrimônio submerso. "Temos uma legislação fraca, que parte do pressuposto de que a prioridade é o valor econômico. A proteção é muito frágil, sempre sujeita a explorações indevidas."

Para Maurício Carvalho, exploradores que se passam por pesquisadores são outro fator que contribui para desmantelar os navios. "Você conta em uma mão o número de pesquisadores sérios. Muitos se dizem pesquisadores, mas querem na verdade arrancar coisas de naufrágios, diz o instrutor. "Muita gente conseguiu autorização para explorar por influência política, brincou de caça ao tesouro e não publicou nada. Só apareceu em revista de mergulho e olhe lá e lotou a casa de peças. Isso é muito comum porque não há fiscalização", afirma Ferrari.

 

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